Aula 41 – Emergências Pediátricas
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
As emergências pediátricas constituem situações de especial complexidade no atendimento pré-hospitalar. Crianças apresentam características anatômicas, fisiológicas e comportamentais diferentes das encontradas nos adultos, e essas diferenças influenciam diretamente a avaliação, o reconhecimento da gravidade e as intervenções realizadas. Uma das características mais importantes da criança gravemente enferma é sua capacidade de manter mecanismos compensatórios durante determinado período e, posteriormente, apresentar deterioração rápida. Taquicardia e aumento do esforço respiratório podem surgir antes da hipotensão. Por isso, reconhecer precocemente alterações respiratórias, circulatórias e neurológicas é fundamental. 41.1 Avaliação inicial da criança A avaliação pediátrica começa antes mesmo do contato físico. A equipe deve observar comportamento, interação com os responsáveis, movimentação espontânea, choro, coloração e padrão respiratório. Uma ferramenta utilizada na avaliação inicial é o Triângulo de Avaliação Pediátrica, estruturado em três componentes: aparência, trabalho respiratório e circulação da pele. Essa avaliação fornece rapidamente uma impressão geral da condição fisiológica da criança. A aparência envolve aspectos como interação, consolabilidade, olhar, fala ou choro e movimentação. Alterações importantes podem indicar comprometimento neurológico, respiratório ou circulatório. O trabalho respiratório considera sinais como retrações, batimento de asas nasais, posicionamento anormal, ruídos respiratórios e utilização de musculatura acessória. A circulação da pele pode ser avaliada pela presença de palidez, cianose ou alterações de perfusão. Após essa impressão inicial, realiza-se avaliação sistematizada das vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. 41.2 Particularidades das vias aéreas As vias aéreas pediátricas apresentam diferenças anatômicas importantes. Quanto menor a criança, maior a influência dessas características sobre o atendimento. A língua ocupa proporcionalmente maior espaço na cavidade oral e as vias aéreas apresentam menor diâmetro. Pequenas quantidades de secreção ou edema podem produzir aumento significativo da resistência ao fluxo aéreo. O posicionamento da cabeça deve considerar idade e anatomia. Uma posição inadequada pode dificultar a passagem de ar. Se houver secreções ou materiais obstruindo as vias aéreas, deve-se realizar manejo apropriado conforme protocolo e treinamento da equipe. 41.3 Emergências respiratórias pediátricas Problemas respiratórios constituem importante causa de deterioração em crianças. Sinais de dificuldade respiratória incluem taquipneia, retrações intercostais ou subcostais, batimento de asas nasais, gemência, estridor, sibilância e utilização de musculatura acessória. A criança também pode apresentar dificuldade para mamar, falar ou chorar adequadamente. Cianose, alteração da consciência, redução dos movimentos respiratórios e exaustão representam sinais de maior gravidade. A redução do esforço respiratório em uma criança anteriormente muito dispneica não deve ser interpretada automaticamente como melhora, pois pode indicar fadiga. 41.4 Oxigenação e ventilação A saturação periférica de oxigênio deve ser monitorizada quando indicada. Crianças com hipoxemia devem receber oxigênio utilizando dispositivo apropriado ao tamanho e à condição clínica. Quando a ventilação espontânea estiver inadequada, pode ser necessário fornecer ventilação com bolsa-válvula-máscara. O equipamento deve possuir tamanho apropriado. A ventilação excessivamente rápida ou com volumes inadequados deve ser evitada. O objetivo é produzir ventilação eficaz observando expansão torácica apropriada. A deterioração respiratória pediátrica pode preceder a parada cardíaca. Por isso, identificar e tratar insuficiência respiratória precocemente constitui uma das principais estratégias para prevenir parada cardiorrespiratória. 41.5 Avaliação circulatória A avaliação circulatória deve considerar frequência cardíaca, pulsos, perfusão periférica, temperatura e coloração das extremidades, enchimento capilar e pressão arterial quando possível. A hipotensão pode ser um sinal tardio de choque em crianças. Uma criança pode manter pressão arterial inicialmente preservada apesar de comprometimento circulatório significativo. Taquicardia, alteração do estado mental, extremidades frias e perfusão periférica inadequada podem aparecer anteriormente. A equipe deve, portanto, avaliar o conjunto das manifestações clínicas e não utilizar apenas a pressão arterial como indicador de estabilidade. 41.6 Choque na criança O choque representa inadequação da perfusão dos tecidos e pode apresentar diferentes causas. Perda de líquidos por vômitos e diarreia, hemorragias, infecções graves, anafilaxia e alterações cardíacas estão entre as possibilidades. Na fase compensada, podem ocorrer taquicardia, extremidades frias, alteração da perfusão e irritabilidade. Com a progressão, podem surgir alteração da consciência, pulsos enfraquecidos e hipotensão. A obtenção de acesso vascular ou intraósseo, quando indicada e compatível com o nível de suporte da equipe, pode ser necessária para administração de líquidos e medicamentos conforme protocolos específicos. 41.7 Febre A febre constitui motivo frequente de procura por atendimento pediátrico. O valor da temperatura deve ser interpretado juntamente com idade, comportamento, estado geral e sintomas associados. Uma criança febril que permanece ativa e interativa apresenta situação diferente daquela que demonstra redução importante da responsividade, dificuldade respiratória ou sinais de má perfusão. Lactentes muito pequenos com febre exigem avaliação médica cuidadosa. A equipe deve investigar duração da febre, medicamentos utilizados, presença de vômitos, diarreia, dificuldade respiratória, alterações cutâneas e outros sintomas. 41.8 Convulsão febril Convulsões associadas à febre podem ocorrer em determinadas crianças pequenas. Entretanto, nem toda convulsão em uma criança febril deve ser automaticamente considerada uma convulsão febril simples. Durante a crise, a prioridade é proteger a criança contra traumatismos e avaliar vias aéreas e respiração. Não se deve introduzir objetos na boca nem tentar conter violentamente os movimentos. A duração da crise deve ser registrada. Convulsões prolongadas exigem tratamento conforme protocolo. Após a crise, devem ser avaliados nível de consciência, glicemia quando indicada, temperatura e sinais de possível infecção grave. 41.9 Hipoglicemia Crianças possuem reservas metabólicas diferentes das dos adultos e podem desenvolver hipoglicemia em determinadas situações. Alteração da consciência, irritabilidade, sonolência, convulsões e comportamento anormal podem estar associados à redução da glicemia. A glicemia capilar deve ser verificada quando clinicamente indicada. Quando houver hipoglicemia, o tratamento deve considerar idade, peso, nível de consciência e protocolo assistencial. Crianças incapazes de engolir com segurança não devem receber líquidos ou alimentos por via oral. 41.10 Desidratação Vômitos e diarreia constituem causas frequentes de desidratação pediátrica. A equipe deve observar estado geral, mucosas, produção urinária relatada pelos responsáveis, frequência cardíaca, perfusão periférica e nível de consciência. Crianças pequenas podem apresentar deterioração mais rapidamente diante de perdas significativas de líquidos. Quando necessária, a reposição de fluidos deve seguir avaliação clínica, peso corporal e protocolos pediátricos específicos. 41.11 Anafilaxia A anafilaxia pediátrica deve ser reconhecida rapidamente. Edema das vias aéreas, dificuldade respiratória, sibilos, alterações circulatórias e manifestações cutâneas podem estar presentes. A adrenalina intramuscular constitui o tratamento de primeira linha quando existem critérios de anafilaxia. A dose pediátrica é calculada de acordo com o peso e deve seguir protocolo específico. Oxigenação, monitorização e suporte circulatório podem ser necessários. 41.12 Administração de medicamentos Um princípio essencial da assistência pediátrica é que muitos medicamentos são calculados com base no peso corporal. Sempre que possível, deve-se obter o peso real da criança. Quando isso não for possível em uma emergência, sistemas validados de estimativa podem ser empregados conforme protocolo. Erros de cálculo podem produzir consequências importantes. Portanto, dose, concentração, volume e via de administração devem ser cuidadosamente conferidos. O uso de tabelas, protocolos e recursos padronizados reduz o risco de erros. 41.13 Comunicação com a criança A abordagem deve ser compatível com a idade e o desenvolvimento. Quando a situação permitir, os procedimentos devem ser explicados utilizando palavras simples. O contato com responsáveis pode ajudar a reduzir medo e facilitar a avaliação. A presença dos pais ou cuidadores pode ser mantida quando não comprometer a segurança ou execução das intervenções. Também é importante ouvir os responsáveis, pois geralmente conhecem o comportamento habitual da criança e podem identificar alterações sutis. 41.14 Suspeita de violência Durante o atendimento, a equipe pode identificar sinais sugestivos de violência ou negligência. Lesões incompatíveis com a história apresentada, diferentes estágios de cicatrização, explicações inconsistentes ou determinadas alterações comportamentais podem exigir avaliação mais cuidadosa. A equipe deve registrar objetivamente os achados observados, evitando acusações ou confrontos inadequados no local. Os procedimentos de comunicação e notificação devem seguir legislação e protocolos institucionais aplicáveis. 41.15 Atuação do enfermeiro O enfermeiro realiza avaliação pediátrica sistematizada, identifica sinais de deterioração e organiza as prioridades assistenciais. Dentro das competências profissionais e dos protocolos, participa da monitorização, administração de oxigênio, obtenção de acesso vascular ou intraósseo quando indicado, administração segura de medicamentos e suporte ventilatório. É fundamental conferir cuidadosamente cálculos baseados no peso. O enfermeiro também deve garantir registros objetivos sobre condição inicial, sinais vitais, intervenções realizadas e resposta da criança. 41.16 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da avaliação e monitorização dentro de suas competências profissionais. Pode verificar sinais vitais, glicemia quando indicada, preparar equipamentos pediátricos, auxiliar na oxigenoterapia e ventilação e administrar medicamentos conforme prescrição ou protocolo autorizado. Deve comunicar imediatamente alterações do nível de consciência, respiração, circulação ou comportamento. 41.17 Transporte pediátrico Durante o transporte, a criança deve permanecer adequadamente posicionada e protegida utilizando sistemas de retenção apropriados. Equipamentos necessários ao atendimento devem estar disponíveis em tamanhos pediátricos. A monitorização deve continuar conforme a gravidade, com reavaliações frequentes das vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. A unidade receptora deve receber informações sobre idade, peso quando conhecido, início dos sintomas, sinais vitais, medicamentos administrados, doses utilizadas, intervenções realizadas e resposta apresentada. 41.18 Considerações finais O atendimento pediátrico exige compreensão das particularidades anatômicas, fisiológicas e comportamentais da criança. A deterioração pode ocorrer rapidamente, principalmente quando existe comprometimento respiratório. A avaliação inicial deve considerar aparência, trabalho respiratório e circulação, seguida de abordagem sistematizada das funções vitais. Hipotensão pode representar manifestação tardia de choque, enquanto alterações do comportamento, taquicardia, aumento do esforço respiratório e perfusão inadequada podem indicar comprometimento mais precocemente. A administração de medicamentos exige atenção especial ao peso e à concentração das soluções. Equipamentos também precisam apresentar dimensões apropriadas. Enfermeiros e técnicos de enfermagem exercem papel fundamental no reconhecimento precoce da deterioração, monitorização e execução segura das intervenções. No atendimento pré-hospitalar pediátrico, observar continuamente a criança e reconhecer alterações antes da descompensação constitui um dos principais elementos para uma assistência segura.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. Emergency Pediatric Care, 2022; Ministério da Saúde; legislação e protocolos profissionais aplicáveis.
