Aula 47 – Atendimento ao Idoso
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
O atendimento pré-hospitalar à pessoa idosa exige atenção específica às alterações fisiológicas relacionadas ao envelhecimento, às doenças crônicas, ao uso simultâneo de medicamentos e às diferentes formas de apresentação das emergências clínicas e traumáticas. Uma condição grave pode manifestar-se de maneira pouco típica no idoso, tornando indispensável uma avaliação sistematizada e cuidadosa. No Brasil, considera-se pessoa idosa aquela com idade igual ou superior a 60 anos. Entretanto, a idade cronológica, isoladamente, não determina a condição funcional do paciente. Pessoas da mesma idade podem apresentar níveis muito diferentes de autonomia, mobilidade, cognição e reserva fisiológica. Por isso, a equipe deve avaliar cada paciente individualmente. 47.1 Particularidades do envelhecimento O envelhecimento produz alterações progressivas nos diferentes sistemas do organismo. Pode ocorrer redução da reserva cardiovascular e respiratória, diminuição da função renal, alterações musculoesqueléticas, redução da percepção sensorial e modificações na resposta imunológica. Essas alterações podem diminuir a capacidade de compensação diante de doenças ou traumatismos. Um paciente jovem pode tolerar determinadas alterações fisiológicas durante algum tempo, enquanto um idoso pode apresentar deterioração mais rápida diante da mesma agressão. Também é frequente a presença simultânea de hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, doenças pulmonares, alterações neurológicas e outras condições crônicas. 47.2 Avaliação inicial A avaliação deve seguir a abordagem sistematizada das vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. Devem ser verificados pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio, temperatura quando indicada, glicemia em situações apropriadas e nível de consciência. É importante conhecer, quando possível, os valores e condições habituais do paciente. Uma pressão arterial aparentemente normal, por exemplo, pode representar redução significativa para uma pessoa que habitualmente apresenta valores elevados. A avaliação deve considerar o conjunto dos sinais clínicos, e não somente valores isolados. 47.3 Apresentações atípicas das doenças Uma característica importante das emergências geriátricas é a possibilidade de apresentações pouco específicas. Infecções podem ocorrer sem febre elevada. Síndrome coronariana aguda pode apresentar-se sem dor torácica típica. O paciente pode manifestar apenas fraqueza, dispneia, náuseas, confusão ou redução funcional. Alterações agudas de comportamento também podem ser manifestação inicial de doença clínica. Por esse motivo, expressões como “está diferente”, “parou de comer”, “ficou mais sonolento” ou “não consegue fazer o que fazia ontem” fornecidas por familiares e cuidadores possuem relevância. Mudanças recentes em relação ao estado habitual devem ser valorizadas. 47.4 Alteração aguda da consciência Confusão de início recente não deve ser considerada consequência normal da idade. O delirium caracteriza-se por alteração aguda da atenção e consciência, frequentemente com curso flutuante, e pode ser provocado por infecções, distúrbios metabólicos, medicamentos, desidratação, hipóxia e diversas outras condições. O paciente pode apresentar agitação ou, ao contrário, tornar-se excessivamente sonolento e pouco responsivo. A equipe deve investigar quando ocorreu a mudança, qual era o estado cognitivo habitual e se houve alterações recentes de medicamentos ou condições clínicas. 47.5 Demência e comunicação Demência e delirium não são sinônimos. As síndromes demenciais apresentam geralmente evolução crônica e progressiva, enquanto o delirium costuma desenvolver-se de maneira aguda ou subaguda. Uma pessoa com demência também pode desenvolver delirium devido a uma doença aguda. Quando houver dificuldade de comunicação, devem ser utilizadas perguntas simples, permitindo tempo suficiente para resposta. Familiares e cuidadores podem auxiliar na obtenção da história, mas o paciente deve ser incluído na comunicação sempre que possuir condições para participar. 47.6 Quedas As quedas constituem importante causa de atendimento pré-hospitalar entre idosos. A equipe deve investigar não apenas as lesões produzidas pela queda, mas também sua causa. Síncope, arritmia, hipotensão, hipoglicemia, acidente vascular cerebral, infecção e efeitos medicamentosos podem provocar quedas. Perguntar o que aconteceu antes da queda é fundamental. O uso de anticoagulantes ou antiagregantes deve ser investigado, especialmente quando houve traumatismo craniano. Mesmo um mecanismo aparentemente pouco intenso pode provocar lesões significativas devido às alterações ósseas relacionadas ao envelhecimento. 47.7 Traumatismo craniano Traumatismos cranianos em idosos merecem atenção especial. O risco de hemorragia intracraniana pode ser maior, principalmente em pacientes que utilizam anticoagulantes. Sinais neurológicos podem surgir imediatamente ou posteriormente. Cefaleia, vômitos, alteração da consciência, déficit neurológico, convulsões ou comportamento diferente do habitual após trauma devem ser valorizados. A ausência inicial de manifestações graves não exclui completamente lesão intracraniana. 47.8 Fratura de quadril A fratura proximal do fêmur é uma lesão relevante na população idosa, frequentemente associada a quedas da própria altura. O paciente pode apresentar dor intensa na região do quadril ou virilha, incapacidade de permanecer em pé e alterações no posicionamento do membro. A movimentação deve ser realizada cuidadosamente. Além da lesão, é necessário investigar o evento que provocou a queda e avaliar circulação, sensibilidade e movimentação distal quando possível. O controle adequado da dor deve seguir protocolos assistenciais. 47.9 Emergências cardiovasculares Doenças cardiovasculares são frequentes em idosos. Síndrome coronariana aguda pode manifestar-se por dor torácica, mas também por dispneia, sudorese, náuseas, síncope, fraqueza ou alteração da consciência. Quando houver suspeita, o eletrocardiograma de 12 derivações deve ser realizado precocemente quando disponível e previsto no protocolo. Arritmias também podem produzir tontura, síncope, dispneia ou fraqueza. O histórico cardiovascular e os medicamentos utilizados precisam ser investigados. 47.10 Acidente vascular cerebral A idade avançada constitui importante fator relacionado à ocorrência de AVC. O aparecimento súbito de assimetria facial, fraqueza de um membro, alteração da fala, perda de coordenação ou alteração visual deve ser reconhecido rapidamente. O horário em que o paciente foi visto pela última vez sem os sintomas deve ser determinado. Não se deve atribuir alteração súbita da fala ou comportamento simplesmente à idade ou a uma demência previamente diagnosticada. 47.11 Infecções e sepse Infecções respiratórias, urinárias e outras podem provocar deterioração importante no idoso. A ausência de febre não exclui infecção grave. Confusão aguda, fraqueza, queda, redução da alimentação, hipotensão, taquipneia e alteração da perfusão podem ser manifestações importantes. Quando houver suspeita de infecção associada a disfunção orgânica, deve-se considerar possibilidade de sepse e providenciar avaliação hospitalar prioritária. 47.12 Desidratação Idosos apresentam maior vulnerabilidade à desidratação por diferentes razões, incluindo redução da percepção da sede, dificuldades de mobilidade, alterações cognitivas, doenças e uso de determinados medicamentos. Vômitos, diarreia e febre podem aumentar as perdas. Fraqueza, hipotensão, taquicardia, alteração da consciência e redução da perfusão podem estar presentes. A reposição de líquidos deve ser individualizada, principalmente porque alguns pacientes possuem insuficiência cardíaca ou renal. 47.13 Polifarmácia A utilização simultânea de vários medicamentos é comum na população idosa. Anti-hipertensivos, anticoagulantes, hipoglicemiantes, sedativos e outros medicamentos podem influenciar a apresentação clínica e o tratamento. A equipe deve obter, sempre que possível, uma lista atualizada dos medicamentos. Embalagens, receitas ou informações fornecidas pelos familiares podem auxiliar. Mudanças recentes nas doses ou introdução de novos medicamentos também devem ser investigadas. 47.14 Dor no idoso A avaliação da dor pode ser dificultada por alterações cognitivas, comunicação limitada ou condições neurológicas. A ausência de uma descrição clara não significa ausência de dor. Expressões faciais, proteção de determinada região corporal, vocalizações, agitação e alterações comportamentais podem fornecer informações adicionais. Pacientes capazes de comunicar-se devem ser questionados diretamente sobre localização, intensidade e características da dor. 47.15 Maus-tratos e negligência A equipe pré-hospitalar pode identificar sinais de violência, abandono ou negligência. Lesões sem explicação compatível, higiene extremamente comprometida, desnutrição, condições ambientais inadequadas, medo de determinado cuidador ou demora injustificada na procura por assistência podem exigir investigação. Nenhum achado isolado comprova violência. A equipe deve registrar objetivamente o que observou e seguir os procedimentos legais e institucionais de notificação quando houver suspeita. 47.16 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve realizar avaliação sistematizada considerando as particularidades geriátricas. Dentro de suas competências, participa da monitorização, realização de eletrocardiograma, avaliação da glicemia, obtenção de acesso vascular, administração de medicamentos e demais intervenções previstas. É importante comparar o estado atual com a condição funcional e cognitiva habitual do paciente. Informações de familiares, cuidadores e instituições de longa permanência podem ser essenciais para essa comparação. 47.17 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da aferição dos sinais vitais, monitorização, glicemia capilar quando indicada, preparação de materiais e administração dos medicamentos prescritos ou protocolados dentro de suas competências. Também deve observar alterações de consciência, respiração, circulação, mobilidade e comportamento. A movimentação do idoso deve ser realizada cuidadosamente devido ao risco aumentado de lesões musculoesqueléticas e cutâneas. 47.18 Transporte e prevenção de complicações O transporte deve considerar conforto, segurança e prevenção de novas lesões. Pacientes com mobilidade reduzida apresentam maior risco de quedas e lesões durante transferências. Dispositivos de transporte e contenção devem ser utilizados adequadamente. Deve-se também prevenir perda de calor e proteger áreas de maior pressão quando possível. Na transferência do cuidado, devem ser informados estado funcional habitual, alterações recentes, doenças conhecidas, medicamentos, mecanismo de eventual queda, sinais vitais, intervenções realizadas e resposta clínica. 47.19 Considerações finais O atendimento pré-hospitalar ao idoso exige avaliação ampla e individualizada. Alterações fisiológicas do envelhecimento, múltiplas doenças e uso simultâneo de medicamentos podem modificar tanto a apresentação quanto a evolução das emergências. Uma das principais regras é não atribuir automaticamente alterações agudas ao envelhecimento. Confusão súbita, fraqueza, queda, redução funcional e sonolência podem representar manifestações de doenças graves. Quedas devem ser avaliadas simultaneamente como possíveis causas de trauma e como possíveis consequências de uma emergência clínica. Uso de anticoagulantes, traumatismo craniano, infecções, alterações cardiovasculares e distúrbios metabólicos merecem atenção especial. Enfermeiros e técnicos de enfermagem devem comparar a condição atual com o estado habitual do paciente, realizar reavaliações frequentes e garantir transporte seguro. A idade, isoladamente, não define prognóstico nem prioridade assistencial. O atendimento deve ser baseado na condição clínica, funcionalidade, sinais de gravidade e necessidades individuais de cada pessoa idosa.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. Emergency Pediatric Care, 2022; Ministério da Saúde; legislação e protocolos profissionais aplicáveis.
