Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 48 – Atendimento à Pessoa com Deficiência

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a atendimento à pessoa com deficiência no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. Emergency Pediatric Care, 2022; Ministério da Saúde; legislação e protocolos profissionais aplicáveis.

Conteúdo da aula

O atendimento pré-hospitalar à pessoa com deficiência deve ser orientado pelos mesmos princípios fundamentais aplicados aos demais pacientes: segurança da cena, avaliação sistematizada, identificação das ameaças imediatas à vida, estabilização e transporte adequado. Entretanto, determinadas deficiências físicas, sensoriais, intelectuais ou múltiplas podem exigir adaptações na comunicação, avaliação, mobilização e execução dos procedimentos. A deficiência, isoladamente, não significa doença, incapacidade para compreender informações ou dependência completa. O profissional deve evitar pressupostos baseados apenas na aparência ou no diagnóstico conhecido. Sempre que possível, deve perguntar diretamente ao paciente como prefere comunicar-se e se necessita de algum auxílio específico. Além disso, é fundamental distinguir condições preexistentes das alterações provocadas pela emergência atual. Uma limitação motora habitual, por exemplo, não deve ser interpretada automaticamente como sinal neurológico agudo, ao mesmo tempo que uma nova alteração não deve ser atribuída indevidamente à deficiência previamente existente. 48.1 Avaliação inicial A abordagem inicial deve seguir a avaliação das vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. As adaptações necessárias não devem atrasar intervenções diante de ameaças imediatas à vida. A equipe deve determinar, sempre que possível, qual é a condição habitual do paciente. Perguntas ao próprio paciente, familiares, acompanhantes ou cuidadores podem ajudar a estabelecer sua linha de base funcional e cognitiva. É importante identificar como a pessoa normalmente se comunica, movimenta-se e responde aos estímulos. Essa informação permite reconhecer alterações realmente novas. 48.2 Comunicação acessível Uma comunicação eficiente é essencial para segurança e qualidade do atendimento. O profissional deve dirigir-se primeiramente ao paciente, e não exclusivamente ao acompanhante. A existência de deficiência não significa que outra pessoa deva responder por ele. As informações devem ser apresentadas de forma clara e objetiva. Quando houver dificuldade de comunicação, podem ser utilizados escrita, gestos, recursos eletrônicos, pranchas de comunicação ou outros métodos disponíveis. O profissional deve confirmar se a informação foi compreendida, especialmente antes de procedimentos importantes. 48.3 Atendimento à pessoa com deficiência auditiva Pessoas surdas ou com deficiência auditiva podem utilizar diferentes formas de comunicação. Algumas utilizam Língua Brasileira de Sinais, outras fazem leitura labial, utilizam aparelhos auditivos, implantes, escrita ou comunicação oral. Não se deve presumir que todas as pessoas surdas realizam leitura labial. Quando a leitura labial for utilizada, o profissional deve permanecer de frente para o paciente, manter boa iluminação e falar normalmente, sem exagerar os movimentos da boca. Máscaras e equipamentos de proteção podem dificultar a leitura facial. Quando não for possível modificar o equipamento por questões de segurança, recursos escritos ou digitais podem ser necessários. Quando disponível e apropriado, intérprete de Libras pode auxiliar na comunicação. 48.4 Atendimento à pessoa com deficiência visual A pessoa com deficiência visual deve receber explicações verbais sobre o ambiente e os procedimentos. Antes de tocar no paciente, o profissional deve identificar-se e informar o que será realizado. Expressões claras como “vou colocar o aparelho para medir sua pressão no braço esquerdo” ajudam a reduzir incertezas durante o atendimento. Ao conduzir uma pessoa com deficiência visual, não se deve puxá-la de maneira inesperada. O profissional pode oferecer seu braço e explicar obstáculos existentes no percurso. Bengalas e outros dispositivos pessoais devem permanecer próximos sempre que isso não comprometer a segurança. 48.5 Cão-guia e animais de assistência Algumas pessoas com deficiência utilizam cães-guia ou outros animais de assistência. O animal não deve ser tratado como animal de estimação durante o atendimento. Não se deve distraí-lo, alimentá-lo ou interferir em seu trabalho sem necessidade. Quando possível, paciente e animal devem permanecer juntos. Entretanto, condições clínicas, limitações físicas da ambulância ou riscos específicos podem exigir organização diferente. Nessas situações, deve-se buscar uma solução que preserve a segurança e a continuidade do cuidado do animal. 48.6 Deficiência física e mobilidade reduzida Pessoas com deficiência física podem utilizar cadeira de rodas, próteses, órteses, muletas ou outros dispositivos. Antes de realizar transferência ou movimentação, deve-se perguntar ao paciente, quando possível, qual técnica costuma ser utilizada e de que maneira a equipe pode auxiliá-lo. Não se deve movimentar uma pessoa apenas segurando braços ou pernas sem considerar suas limitações. Próteses e órteses devem ser avaliadas quanto à interferência nos procedimentos. Sua retirada somente deve ocorrer quando necessária para atendimento, imobilização ou segurança. Os dispositivos pessoais devem ser identificados e, sempre que possível, acompanhar o paciente. 48.7 Cadeira de rodas A cadeira de rodas constitui importante recurso de mobilidade e autonomia. Quando o paciente precisar ser transferido, a cadeira deve ser estabilizada adequadamente. Freios devem ser acionados quando apropriado e apoios para os pés precisam ser considerados durante a movimentação. Não se deve levantar uma cadeira de rodas por estruturas removíveis ou inadequadas. Durante o transporte em ambulância, devem ser utilizados sistemas apropriados de retenção conforme características do veículo e protocolo do serviço. 48.8 Lesão medular prévia Pessoas com lesão medular podem apresentar alterações motoras e sensitivas preexistentes. A equipe deve determinar qual é o nível habitual de movimentação e sensibilidade. Uma alteração nova deve ser valorizada, principalmente após trauma. Algumas pessoas com lesão medular podem apresentar alterações autonômicas específicas. A disreflexia autonômica, por exemplo, pode ocorrer em determinadas lesões medulares altas e apresentar hipertensão importante, cefaleia, sudorese e outras manifestações. Essa situação exige reconhecimento e avaliação imediata da possível causa desencadeante conforme protocolo. 48.9 Deficiência intelectual A deficiência intelectual apresenta diferentes níveis e características. Não se deve presumir incapacidade de compreensão apenas pelo diagnóstico. A equipe deve utilizar linguagem simples, concreta e adequada à capacidade demonstrada pelo paciente. Perguntas devem ser realizadas uma de cada vez. Quando necessário, familiares ou cuidadores podem auxiliar na compreensão da forma habitual de comunicação e comportamento. Entretanto, sempre que possível, o paciente deve continuar sendo diretamente incluído na conversa. Mudanças agudas de comportamento também podem indicar dor ou doença. 48.10 Pessoas autistas Pessoas autistas podem apresentar diferentes formas de comunicação, interação e processamento sensorial. Não existe uma única abordagem aplicável a todas. Luzes intensas, sirenes, ruídos, contato físico inesperado e grande número de pessoas podem aumentar desconforto ou desorganização em alguns pacientes. Quando a situação clínica permitir, a equipe pode reduzir estímulos desnecessários, explicar previamente os procedimentos e limitar o número de profissionais falando simultaneamente. Perguntas objetivas e instruções simples podem facilitar a comunicação. Algumas pessoas utilizam comunicação alternativa ou aumentativa. Esses recursos devem ser mantidos acessíveis sempre que possível. Comportamentos repetitivos não devem ser interrompidos automaticamente se não estiverem causando risco ou impedindo uma intervenção necessária. 48.11 Crises comportamentais Alterações comportamentais em pessoas com deficiência intelectual ou autismo não devem ser automaticamente interpretadas como agressividade intencional. Dor, medo, dificuldade de comunicação, ambiente desconhecido, alterações sensoriais ou doença podem contribuir. A equipe deve procurar identificar possíveis causas clínicas. A contenção física não deve ser utilizada simplesmente para facilitar procedimentos. Quando existir risco imediato de dano e medidas menos restritivas forem insuficientes, qualquer intervenção restritiva deve seguir protocolos específicos e ser acompanhada de monitorização. 48.12 Deficiência de fala Uma pessoa que não consegue falar não deve ser considerada incapaz de compreender. Pacientes podem utilizar gestos, escrita, dispositivos eletrônicos ou sistemas de comunicação alternativa. Perguntas que permitam respostas simples podem ser úteis. O profissional deve fornecer tempo suficiente para que o paciente responda. Retirar um dispositivo de comunicação sem necessidade pode aumentar significativamente a dificuldade de atendimento. 48.13 Dispositivos médicos Algumas pessoas com deficiência ou doenças crônicas utilizam equipamentos médicos permanentes ou temporários. Sondas, cateteres, ostomias, dispositivos respiratórios, bombas de infusão e outros equipamentos podem estar presentes. A equipe deve identificar sua finalidade e verificar se existe alguma complicação relacionada ao dispositivo. Quando possível, equipamentos essenciais devem acompanhar o paciente, principalmente quando sua interrupção puder comprometer a assistência. Familiares e cuidadores podem fornecer informações importantes sobre funcionamento e rotina de utilização. 48.14 Avaliação da dor A dificuldade de comunicação pode tornar a avaliação da dor mais complexa. Quando o paciente não consegue utilizar escalas numéricas convencionais, podem ser empregados outros métodos compatíveis com sua forma de comunicação. Mudanças de expressão facial, vocalizações, postura, proteção de uma região corporal, agitação ou retraimento podem auxiliar na avaliação. Entretanto, esses sinais devem ser comparados com o comportamento habitual do paciente. 48.15 Trauma Em situações traumáticas, a deficiência preexistente não modifica a prioridade de identificação de lesões graves. A equipe deve estabelecer quais déficits motores ou sensitivos já existiam antes do evento. Essa informação é especialmente importante na avaliação neurológica. A movimentação deve considerar deformidades, contraturas, próteses e limitações articulares preexistentes. Técnicas convencionais podem necessitar de adaptação para evitar dor ou novas lesões. 48.16 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve realizar avaliação sistematizada e identificar quais adaptações são necessárias para comunicação, mobilização e execução dos procedimentos. Dentro de suas competências, realiza monitorização, administração de medicamentos, manejo dos dispositivos e demais intervenções indicadas. Também deve buscar informações sobre a condição funcional habitual, registrando separadamente alterações preexistentes e novos achados. A autonomia do paciente deve ser preservada sempre que sua condição permitir participação nas decisões. 48.17 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da monitorização, aferição dos sinais vitais, preparação de materiais, administração dos medicamentos prescritos dentro de suas competências e auxílio na movimentação e transporte. Deve observar necessidades específicas de comunicação e mobilidade. Mudanças comportamentais ou clínicas devem ser comunicadas ao enfermeiro e aos demais profissionais responsáveis. 48.18 Transporte O planejamento do transporte deve considerar tanto a condição clínica quanto os recursos de acessibilidade utilizados pelo paciente. Cadeira de rodas, próteses, aparelhos auditivos, dispositivos de comunicação e outros recursos devem ser preservados e, quando possível e seguro, acompanhar a pessoa. Durante o transporte, devem ser mantidas monitorização e reavaliações conforme a gravidade. Na transferência do cuidado, a equipe deve informar a condição funcional habitual, forma preferencial de comunicação, dispositivos utilizados, alterações encontradas e intervenções realizadas. 48.19 Considerações finais O atendimento pré-hospitalar à pessoa com deficiência deve combinar os princípios universais da assistência de emergência com adaptações individualizadas. A deficiência não pode ser utilizada como explicação automática para sintomas novos nem como justificativa para excluir o paciente das decisões sobre seu próprio atendimento. Perguntar diretamente como a pessoa se comunica, qual auxílio necessita e qual é sua condição habitual frequentemente fornece informações essenciais para uma assistência segura. Pessoas com deficiência auditiva, visual, física ou intelectual, assim como pessoas autistas, podem necessitar de estratégias diferentes, mas o objetivo permanece o mesmo: reconhecer ameaças à vida, preservar autonomia, reduzir barreiras e executar intervenções tecnicamente adequadas. Enfermeiros e técnicos de enfermagem devem distinguir alterações preexistentes das manifestações produzidas pela emergência atual, preservar dispositivos essenciais e adaptar comunicação e movimentação quando necessário. O atendimento adequado não consiste em tratar todos exatamente da mesma maneira, mas em garantir que cada paciente tenha acesso efetivo e seguro às mesmas possibilidades de avaliação, estabilização e continuidade do cuidado.

PARTE VII – EMERGÊNCIAS AMBIENTAIS
CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. Emergency Pediatric Care, 2022; Ministério da Saúde; legislação e protocolos profissionais aplicáveis.

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