Aula 50 – Hipotermia e Hipertermia
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
As alterações extremas da temperatura corporal constituem emergências ambientais capazes de comprometer progressivamente o funcionamento dos sistemas cardiovascular, respiratório e neurológico. A hipotermia ocorre quando a temperatura corporal central cai abaixo de 35 °C. A hipertermia corresponde à elevação não controlada da temperatura corporal devido à produção excessiva de calor ou à incapacidade de dissipá-lo adequadamente. No atendimento pré-hospitalar, ambas exigem reconhecimento precoce, interrupção da exposição ambiental, estabilização das funções vitais e controle cuidadoso da temperatura. Crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores expostos a temperaturas extremas e indivíduos sob efeito de determinadas substâncias apresentam maior vulnerabilidade. 50.1 Hipotermia A hipotermia ocorre quando a perda de calor corporal supera sua produção. Pode acontecer após exposição prolongada ao frio, imersão em água fria, permanência com roupas molhadas ou incapacidade de procurar abrigo adequado. Temperaturas ambientais muito baixas não são obrigatórias. A combinação entre vento, chuva, umidade e exposição prolongada pode provocar perda significativa de calor mesmo em condições aparentemente moderadas. Intoxicação por álcool ou outras substâncias, alterações da consciência, traumatismos e determinadas doenças também podem aumentar o risco. 50.2 Classificação da hipotermia A hipotermia pode ser classificada de acordo com a temperatura central e os achados clínicos. Na hipotermia leve, geralmente entre 32 °C e 35 °C, o paciente costuma estar consciente e apresentar tremores. Podem ocorrer taquicardia, aumento inicial da frequência respiratória, dificuldade de coordenação e alterações comportamentais. Na hipotermia moderada, aproximadamente entre 28 °C e 32 °C, ocorre redução progressiva dos tremores, alteração da consciência, bradicardia e diminuição da frequência respiratória. A hipotermia grave, geralmente abaixo de 28 °C, pode provocar coma, arritmias, hipotensão, depressão respiratória e parada cardiorrespiratória. Esses valores devem ser interpretados juntamente com a condição clínica, pois existe variação individual. 50.3 Avaliação inicial A avaliação deve seguir as prioridades das vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. Em hipotermia grave, pulso e respiração podem estar extremamente lentos e difíceis de identificar. A avaliação deve ser cuidadosa antes de concluir que existe parada cardiorrespiratória. Quando disponível, a temperatura central deve ser obtida utilizando equipamento adequado para temperaturas reduzidas. Também devem ser investigados tempo de exposição, condições ambientais, roupas utilizadas, doenças conhecidas, medicamentos, consumo de álcool ou outras substâncias e possibilidade de trauma. 50.4 Retirada do ambiente frio A primeira medida consiste em interromper novas perdas térmicas. A vítima deve ser transferida para local protegido do vento, chuva e frio. Roupas molhadas devem ser cuidadosamente removidas e substituídas por materiais secos. O corpo deve ser isolado do solo frio e protegido com cobertores ou outros recursos térmicos disponíveis. A manipulação deve ser cuidadosa, especialmente na hipotermia moderada ou grave. Movimentações desnecessariamente bruscas devem ser evitadas. 50.5 Reaquecimento As estratégias de reaquecimento dependem da gravidade. Pacientes conscientes com hipotermia leve podem responder ao isolamento térmico e ao reaquecimento externo. Bolsas ou dispositivos aquecidos podem ser utilizados com proteção adequada, evitando contato direto capaz de provocar queimaduras. O aquecimento deve priorizar o tronco. Em pacientes com hipotermia moderada ou grave, métodos de reaquecimento ativo e técnicas hospitalares avançadas podem ser necessários. Líquidos intravenosos aquecidos e outras estratégias podem integrar o tratamento conforme recursos e protocolos. 50.6 O que deve ser evitado Não se deve esfregar vigorosamente braços e pernas na tentativa de aquecer a vítima. Também não devem ser aplicadas fontes extremamente quentes diretamente sobre a pele. Bebidas alcoólicas não são tratamento para hipotermia. O álcool pode aumentar a perda de calor e comprometer a capacidade de julgamento. Bebidas aquecidas podem ser consideradas somente em situações específicas de hipotermia leve, quando a pessoa estiver plenamente consciente e conseguir engolir com segurança. 50.7 Parada cardíaca associada à hipotermia A hipotermia grave pode provocar bradicardia intensa e arritmias, evoluindo para parada cardíaca. Quando houver parada confirmada, devem ser iniciadas medidas de ressuscitação conforme protocolos específicos para hipotermia. A desfibrilação e a administração de medicamentos durante hipotermia profunda apresentam particularidades e devem seguir diretrizes de suporte avançado. O reaquecimento constitui parte essencial do tratamento. A decisão de interromper uma ressuscitação em vítima profundamente hipotérmica exige critérios específicos e não deve ser baseada apenas na aparência inicial do paciente. 50.8 Hipertermia A hipertermia ocorre quando os mecanismos de dissipação de calor tornam-se insuficientes diante da carga térmica. Diferentemente da febre, na qual existe alteração regulada do ponto de ajuste térmico do organismo, a hipertermia decorre de acúmulo excessivo de calor. Pode ocorrer devido à exposição ambiental, atividade física intensa, determinados medicamentos ou substâncias e condições que prejudicam a termorregulação. Entre as emergências relacionadas ao calor, destacam-se a exaustão pelo calor e a insolação. 50.9 Exaustão pelo calor A exaustão pelo calor geralmente está relacionada à exposição a temperaturas elevadas associada à perda de água e eletrólitos. O paciente pode apresentar sudorese intensa, fraqueza, tontura, cefaleia, náuseas, vômitos, taquicardia e sensação de desmaio. A pessoa deve ser retirada do ambiente quente e levada para local fresco ou climatizado. Roupas excessivas devem ser removidas e medidas de resfriamento iniciadas. Quando o paciente estiver consciente e sem contraindicação para ingestão oral, reposição de líquidos pode ser considerada. Casos mais significativos podem necessitar de reposição intravenosa conforme avaliação e protocolo. 50.10 Insolação A insolação, ou golpe de calor, é uma emergência potencialmente fatal caracterizada por hipertermia importante associada a disfunção do sistema nervoso central. Alterações como confusão, comportamento anormal, convulsões, redução da consciência ou coma em uma pessoa com hipertermia devem aumentar fortemente a suspeita. A temperatura central frequentemente é igual ou superior a 40 °C, mas o diagnóstico não deve depender exclusivamente de um valor isolado. A insolação pode evoluir para disfunção de múltiplos órgãos e necessita de resfriamento imediato. 50.11 Insolação clássica e relacionada ao exercício A insolação clássica ocorre principalmente durante períodos de calor intenso e afeta com maior frequência pessoas vulneráveis, como idosos e indivíduos com doenças crônicas. A insolação relacionada ao exercício pode ocorrer em pessoas jovens e fisicamente ativas submetidas a esforço intenso em ambiente quente, como atletas, trabalhadores e militares. Em ambos os casos, a presença de alteração neurológica associada à hipertermia constitui um sinal fundamental de gravidade. 50.12 Resfriamento O paciente deve ser retirado imediatamente da fonte de calor. Roupas excessivas devem ser removidas e o resfriamento iniciado o mais rapidamente possível. Na insolação por esforço, a imersão em água fria é um método altamente eficaz quando disponível e operacionalmente seguro. Outros métodos incluem aplicação de água sobre a pele associada à ventilação e utilização de recursos frios em regiões corporais apropriadas. O resfriamento não deve ser desnecessariamente atrasado pelo transporte quando houver condições seguras para iniciá-lo no local. Simultaneamente, devem ser mantidas avaliação e estabilização das funções vitais. 50.13 Convulsões e alteração da consciência Hipertermia grave pode produzir confusão, agitação, convulsões e coma. Durante uma convulsão, deve-se proteger o paciente contra traumatismos, sem introduzir objetos na boca. Após a crise, devem ser reavaliadas vias aéreas, ventilação e circulação. A glicemia capilar deve ser considerada diante de alterações neurológicas, pois hipoglicemia pode coexistir ou representar diagnóstico diferencial. 50.14 Medicamentos antitérmicos Medicamentos utilizados para reduzir febre, como paracetamol, não constituem tratamento da hipertermia ambiental ou do golpe de calor. Isso ocorre porque o mecanismo da hipertermia é diferente daquele envolvido na febre. A prioridade é remover o paciente da exposição e realizar resfriamento físico adequado. 50.15 Grupos vulneráveis Idosos apresentam maior risco devido à redução da capacidade de termorregulação, doenças crônicas e utilização de medicamentos. Crianças pequenas também apresentam vulnerabilidade específica. Pessoas com mobilidade reduzida ou incapazes de acessar ambientes climatizados podem permanecer expostas por períodos prolongados. Determinados medicamentos e substâncias também podem alterar mecanismos de termorregulação ou hidratação. 50.16 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve avaliar temperatura, vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico, identificando rapidamente sinais de gravidade. Na hipotermia, participa das estratégias de prevenção de novas perdas térmicas, reaquecimento, monitorização cardíaca e demais intervenções previstas. Na hipertermia, deve organizar medidas rápidas de resfriamento, monitorização, acesso vascular quando indicado e reposição de líquidos conforme protocolo. Temperaturas, sinais vitais, métodos utilizados e resposta ao tratamento devem ser registrados. 50.17 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da monitorização, aferição da temperatura e sinais vitais, preparação dos materiais e execução das medidas de aquecimento ou resfriamento dentro de suas competências. Também auxilia na retirada de roupas molhadas ou excessivas, proteção térmica, oxigenoterapia quando indicada e administração dos medicamentos e soluções prescritos. Qualquer deterioração neurológica, respiratória ou cardiovascular deve ser comunicada imediatamente. 50.18 Transporte Durante o transporte, as medidas de controle térmico devem continuar. Na hipotermia, deve-se impedir novas perdas de calor e monitorizar possíveis alterações cardíacas. Na hipertermia grave, o resfriamento deve continuar conforme necessidade e protocolo. A unidade receptora deve receber informações sobre condições ambientais, tempo estimado de exposição, temperatura registrada, nível de consciência, sinais vitais, medidas realizadas e resposta clínica. 50.19 Considerações finais Hipotermia e hipertermia podem evoluir para comprometimento neurológico, cardiovascular e respiratório grave. O tratamento começa pela interrupção da exposição ambiental e pelo reconhecimento da alteração da temperatura corporal. Na hipotermia, a prioridade é impedir novas perdas de calor e promover reaquecimento apropriado à gravidade, mantendo manipulação cuidadosa nos casos graves. Na hipertermia, especialmente na insolação, o resfriamento rápido é uma intervenção essencial e não deve ser desnecessariamente retardado. Enfermeiros e técnicos de enfermagem devem reconhecer alterações da consciência, instabilidade cardiovascular, convulsões e sinais de falência respiratória. Avaliação sistematizada, controle térmico adequado, monitorização contínua e transporte para serviço compatível com a gravidade constituem os fundamentos do atendimento pré-hospitalar às emergências provocadas pelo frio e pelo calor.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
Ministério da Saúde; Portaria GM/MS nº 2.048/2002; referências bibliográficas da apostila-base.
