Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 52 – Acidentes com Animais Peçonhentos

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a acidentes com animais peçonhentos no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: Ministério da Saúde; Portaria GM/MS nº 2.048/2002; referências bibliográficas da apostila-base.

Conteúdo da aula

Os acidentes com animais peçonhentos constituem importante causa de atendimento de urgência, especialmente em regiões tropicais. São provocados por animais capazes de produzir e inocular substâncias tóxicas por meio de estruturas especializadas, como presas, ferrões ou aparelhos inoculadores. No Brasil, destacam-se os acidentes envolvendo serpentes, escorpiões, aranhas, abelhas e determinadas lagartas. No atendimento pré-hospitalar, as prioridades são reconhecer sinais de gravidade, manter as funções vitais, evitar procedimentos inadequados, transportar o paciente para serviço capaz de realizar tratamento específico e, quando indicado, possibilitar administração de soro antiveneno. A gravidade depende da espécie envolvida, quantidade de veneno inoculada, região atingida, tempo transcorrido, idade, massa corporal e condições clínicas da vítima. 52.1 Segurança da cena Antes de aproximar-se, a equipe deve verificar se o animal ainda representa risco. Não se deve tentar capturar serpentes, escorpiões ou outros animais quando isso colocar pessoas em perigo. A prioridade é retirar a vítima da área de risco. Quando houver fotografia obtida com segurança, ela pode auxiliar posteriormente na identificação. Não é necessário capturar ou transportar o animal para garantir tratamento adequado. Animais mortos também podem representar risco, especialmente serpentes, devido à possibilidade de inoculação por manipulação inadequada. 52.2 Avaliação inicial A avaliação deve seguir uma sequência sistematizada, verificando vias aéreas, respiração, circulação e condição neurológica. Devem ser avaliados pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação periférica de oxigênio, nível de consciência e características da região atingida. É importante determinar, quando possível, horário do acidente, local onde ocorreu, parte do corpo atingida, características do animal e evolução dos sintomas. Dor, edema, sangramento, alterações neurológicas, vômitos, sudorese, dificuldade respiratória e sinais de choque devem ser identificados. 52.3 O que não fazer Diversas práticas populares podem agravar o quadro e devem ser evitadas. Não se deve realizar torniquete ou garrote no membro atingido. A interrupção da circulação pode aumentar lesões locais e produzir complicações graves. Também não devem ser realizados cortes, perfurações ou sucção da região da picada. Não se deve aplicar álcool, pó de café, folhas, querosene, produtos químicos ou outras substâncias sobre a lesão. Choques elétricos e outras técnicas caseiras não apresentam benefício comprovado e podem provocar novas lesões. A vítima também não deve ingerir bebidas alcoólicas. 52.4 Cuidados gerais A vítima deve ser mantida em repouso e tranquilizada durante o atendimento. Anéis, pulseiras, relógios e outros objetos constritivos próximos ao membro atingido devem ser retirados precocemente, pois o edema pode aumentar. Quando possível, a região pode ser higienizada suavemente com água e sabão, sem manipulação excessiva. O horário aproximado do acidente deve ser registrado. O paciente deve ser encaminhado para unidade adequada o mais rapidamente possível quando houver suspeita de envenenamento. 52.5 Acidentes por serpentes Os principais acidentes ofídicos de importância médica no Brasil são classificados conforme o gênero envolvido, destacando-se os acidentes botrópico, crotálico, laquético e elapídico. Cada grupo apresenta manifestações características, embora a identificação definitiva não deva depender apenas da descrição do animal. A avaliação clínica e epidemiológica realizada no serviço especializado auxilia na classificação e indicação do tratamento. O soro antiofídico é o tratamento específico para casos com indicação e deve ser administrado em ambiente preparado para reconhecer e tratar possíveis reações. 52.6 Acidente botrópico Os acidentes botrópicos estão associados principalmente às serpentes do gênero Bothrops, grupo que inclui diferentes espécies popularmente chamadas de jararacas. São frequentes manifestações locais como dor, edema e equimoses. Podem surgir sangramentos e alterações da coagulação. Nos casos graves, podem ocorrer hemorragias importantes, hipotensão, choque e comprometimento renal. O edema pode progredir significativamente. A equipe deve retirar objetos constritivos e acompanhar circulação, sensibilidade e condição do membro, sem realizar garroteamento. 52.7 Acidente crotálico O acidente crotálico está relacionado às cascavéis do gênero Crotalus. As manifestações locais podem ser relativamente discretas quando comparadas às observadas em alguns acidentes botrópicos. Entretanto, manifestações sistêmicas podem ser importantes. Podem ocorrer fraqueza, alterações neuromusculares, queda das pálpebras, visão alterada, dores musculares e alterações urinárias decorrentes do comprometimento muscular. Casos graves podem evoluir com insuficiência respiratória e lesão renal. A ausência de edema local intenso não significa necessariamente acidente leve. 52.8 Acidente laquético O acidente laquético está relacionado às serpentes do gênero Lachesis, conhecidas popularmente como surucucus. Pode produzir manifestações locais semelhantes às do acidente botrópico, incluindo dor, edema e sangramento. Também podem ocorrer manifestações autonômicas, como vômitos, diarreia, sudorese, alterações cardiovasculares e hipotensão. A vítima necessita de avaliação hospitalar e tratamento específico quando indicado. 52.9 Acidente elapídico No Brasil, os acidentes elapídicos estão principalmente relacionados às corais verdadeiras do gênero Micrurus. O veneno possui importante ação neurotóxica. Podem ocorrer fraqueza muscular progressiva, alterações palpebrais, dificuldade para falar e engolir e comprometimento da musculatura respiratória. As manifestações locais podem ser discretas. A insuficiência respiratória constitui uma das principais preocupações e pode exigir suporte ventilatório. Por isso, suspeita consistente de acidente por coral verdadeira exige avaliação urgente. 52.10 Acidentes por escorpiões O escorpionismo apresenta relevância especial no Brasil e pode variar desde dor local até manifestações sistêmicas graves. A dor no local da picada é manifestação frequente. Podem ocorrer sudorese, náuseas, vômitos, alterações cardiovasculares e respiratórias. Crianças, especialmente as menores, apresentam maior risco de evolução grave. Casos com manifestações sistêmicas exigem avaliação rápida em serviço capaz de fornecer tratamento específico. O controle da dor e a monitorização devem seguir protocolos assistenciais. 52.11 Acidentes por aranhas Entre as aranhas de importância médica no Brasil destacam-se aquelas relacionadas aos gêneros Phoneutria, Loxosceles e Latrodectus. Os acidentes por Phoneutria, grupo das armadeiras, geralmente apresentam dor local intensa e podem produzir manifestações autonômicas. Nos acidentes por Loxosceles, grupo das aranhas-marrons, a lesão pode evoluir progressivamente ao longo das horas, com alterações cutâneas e necrose. Em determinados casos podem ocorrer manifestações sistêmicas, incluindo hemólise. Os acidentes relacionados a Latrodectus podem provocar dor, alterações musculares e manifestações autonômicas. O diagnóstico e tratamento devem ser realizados conforme quadro clínico e avaliação especializada. 52.12 Abelhas e outros insetos Picadas de abelhas podem produzir reação local com dor, edema e vermelhidão. Entretanto, múltiplas ferroadas podem causar toxicidade sistêmica significativa. Além disso, pessoas sensibilizadas podem desenvolver anafilaxia mesmo após uma única ferroada. Quando o ferrão permanecer visível, deve ser removido rapidamente, evitando atrasos desnecessários relacionados à técnica específica de retirada. Dificuldade respiratória, edema de língua ou garganta, hipotensão, alteração da consciência ou manifestações sistêmicas após ferroada devem levantar suspeita de anafilaxia. A anafilaxia exige tratamento imediato conforme protocolo, tendo a adrenalina intramuscular como medicamento de primeira linha. 52.13 Acidentes por lagartas Algumas lagartas possuem estruturas capazes de inocular substâncias tóxicas pelo contato com a pele. No Brasil, acidentes por determinadas espécies do gênero Lonomia merecem atenção especial devido à possibilidade de alterações graves da coagulação. A vítima pode inicialmente apresentar dor e irritação local e posteriormente desenvolver manifestações hemorrágicas. A região deve ser lavada sem manipulação agressiva. Quando houver suspeita de acidente por Lonomia, o paciente deve ser encaminhado para avaliação hospitalar, pois existe tratamento específico para casos indicados. 52.14 Anafilaxia Qualquer acidente envolvendo animais peçonhentos ou insetos pode ser acompanhado de reação alérgica grave. Anafilaxia pode apresentar comprometimento respiratório, circulatório ou ambos, frequentemente associado a manifestações cutâneas ou mucosas. A ausência de lesões de pele não exclui anafilaxia. Quando identificada, a adrenalina intramuscular deve ser administrada prontamente conforme protocolo, geralmente na região anterolateral da coxa. A equipe deve manter vias aéreas, fornecer oxigênio quando indicado, monitorizar circulação e preparar-se para deterioração rápida. 52.15 Soro antiveneno Os soros antivenenos constituem tratamento específico para determinados envenenamentos. A indicação depende do tipo de acidente e da classificação clínica da gravidade. O soro deve ser administrado por via intravenosa em ambiente com recursos para atendimento de possíveis reações. Não deve ser aplicado diretamente no local da picada. O tratamento não deve ser retardado desnecessariamente quando houver indicação estabelecida. No atendimento pré-hospitalar, a prioridade é reconhecer a gravidade e transportar o paciente para serviço de referência. 52.16 Monitorização Pacientes com manifestações sistêmicas necessitam de acompanhamento rigoroso. Devem ser reavaliados pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, consciência e evolução dos sinais locais. Edema progressivo, sangramentos, vômitos repetidos, alterações neurológicas, dificuldade respiratória e hipotensão representam sinais de alerta. A equipe deve estar preparada para suporte ventilatório e cardiovascular quando necessário. 52.17 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve realizar avaliação sistematizada, identificar sinais de envenenamento e organizar as prioridades assistenciais. Dentro das competências profissionais e protocolos, participa da monitorização, obtenção de acesso vascular, oxigenoterapia, administração dos medicamentos indicados e tratamento de complicações. Deve registrar horário do acidente, região atingida, características relatadas do animal, evolução dos sintomas e intervenções realizadas. Também é importante comunicar antecipadamente ao serviço receptor quando houver sinais de gravidade. 52.18 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da aferição dos sinais vitais, monitorização, preparação dos materiais, oxigenoterapia e administração dos medicamentos prescritos ou protocolados dentro de suas competências. Deve acompanhar a evolução do edema, dor, sangramentos e manifestações sistêmicas. Qualquer alteração respiratória, cardiovascular ou neurológica deve ser imediatamente comunicada. 52.19 Transporte O transporte deve ser realizado para unidade capaz de avaliar adequadamente o envenenamento e fornecer tratamento específico quando necessário. A vítima deve permanecer em repouso durante o deslocamento. Nos casos graves, a equipe deve manter monitorização contínua e estar preparada para suporte das vias aéreas, ventilação e circulação. A unidade receptora deve ser informada sobre horário do acidente, animal suspeito, manifestações apresentadas, sinais vitais e tratamentos realizados. 52.20 Considerações finais Os acidentes com animais peçonhentos podem variar de manifestações locais leves a quadros sistêmicos potencialmente fatais. O reconhecimento precoce da gravidade e o transporte adequado são fundamentais. No ambiente pré-hospitalar, não devem ser realizados torniquetes, cortes, sucção do veneno ou aplicação de substâncias sobre a lesão. A vítima deve permanecer em repouso, objetos constritivos devem ser retirados e as funções vitais monitorizadas. Serpentes, escorpiões, aranhas, abelhas e lagartas podem produzir diferentes síndromes clínicas. Crianças apresentam particular vulnerabilidade aos acidentes escorpiônicos, enquanto determinados acidentes ofídicos podem provocar alterações hemorrágicas, neurológicas, musculares ou renais. O soro antiveneno é fundamental quando indicado, mas sua administração depende da avaliação e classificação adequada do acidente. No atendimento pré-hospitalar, enfermeiros e técnicos de enfermagem possuem papel essencial no reconhecimento das manifestações, prevenção de práticas prejudiciais, estabilização do paciente e encaminhamento rápido ao serviço capaz de realizar o tratamento definitivo.

PARTE VIII – RESGATE, MOVIMENTAÇÃO E TRANSPORTE
CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

Ministério da Saúde; Portaria GM/MS nº 2.048/2002; referências bibliográficas da apostila-base.

Powered by Joinchat