Aula 54 – Retirada e Movimentação de Vítimas
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
A retirada e a movimentação de vítimas constituem etapas importantes do atendimento pré-hospitalar, especialmente em ocorrências traumáticas. A forma como o paciente é movimentado deve considerar sua condição clínica, o mecanismo do trauma, os riscos existentes na cena, o espaço disponível, a necessidade de restrição de movimento da coluna e os recursos disponíveis. O princípio fundamental é evitar movimentações desnecessárias. Entretanto, isso não significa manter obrigatoriamente a vítima na posição em que foi encontrada. Quando existem ameaças imediatas à vida, necessidade de acesso às vias aéreas, hemorragia grave, parada cardiorrespiratória ou riscos ambientais, a movimentação pode ser indispensável. A escolha da técnica deve equilibrar dois objetivos: não atrasar intervenções essenciais e reduzir o risco de produzir lesões adicionais. 54.1 Avaliação antes da movimentação Antes de movimentar a vítima, a equipe deve realizar uma avaliação rápida da cena e da condição clínica. Devem ser identificados riscos como trânsito, incêndio, eletricidade, instabilidade estrutural, produtos perigosos, violência ou possibilidade de queda. Em seguida, devem ser avaliadas as ameaças imediatas à vida. Nos pacientes traumatizados, atenção especial deve ser dada a hemorragias externas graves, vias aéreas, ventilação, circulação e condição neurológica. Quando a cena é segura e o paciente está estável, existe maior possibilidade de planejar cuidadosamente a movimentação. 54.2 Movimentação emergencial A movimentação emergencial ocorre quando permanecer no local representa risco maior do que movimentar imediatamente a vítima. Pode ser necessária diante de incêndio, risco de explosão, estrutura prestes a desabar, tráfego sem controle ou outras ameaças ambientais. Também pode ser necessária quando a posição do paciente impede uma intervenção vital. Uma vítima em parada cardiorrespiratória encontrada em posição que impossibilita compressões eficazes, por exemplo, precisa ser movimentada para uma superfície apropriada. Nessas situações, a preservação imediata da vida possui prioridade. 54.3 Movimentação não emergencial Quando não existe risco imediato, a movimentação pode ser planejada. A equipe deve definir previamente quem coordenará a ação, quais equipamentos serão utilizados e qual será o destino da transferência. Todos os profissionais devem compreender o comando antes do início. Movimentações realizadas sem coordenação aumentam a possibilidade de queda, perda de dispositivos, agravamento da dor e esforço físico desnecessário para os profissionais. Um integrante deve assumir a liderança e emitir comandos claros para que todos movimentem simultaneamente. 54.4 Restrição de movimento da coluna Durante muitos anos, vítimas de trauma foram submetidas rotineiramente à chamada “imobilização completa da coluna”. Atualmente, a abordagem é mais seletiva e utiliza-se o conceito de restrição de movimento da coluna quando clinicamente indicada. O objetivo é reduzir movimentos potencialmente prejudiciais em pacientes com suspeita de lesão vertebral ou medular. A decisão deve considerar mecanismo do trauma, dor ou sensibilidade na coluna, alterações neurológicas, nível de consciência e outros critérios previstos nos protocolos assistenciais. A restrição não deve atrasar intervenções necessárias para preservar vias aéreas, ventilação ou circulação. 54.5 Estabilização manual Quando existe suspeita de lesão cervical e a situação exige controle inicial, pode ser realizada estabilização manual da cabeça. O profissional mantém a cabeça alinhada de maneira neutra quando isso for possível e tolerado. Não se deve forçar o alinhamento diante de resistência, dor intensa, piora neurológica ou comprometimento das vias aéreas. A estabilização manual pode ser mantida enquanto outros profissionais realizam avaliação e preparam os equipamentos necessários. 54.6 Colar cervical O colar cervical pode integrar a estratégia de restrição de movimento em pacientes selecionados, conforme protocolo. Ele deve apresentar tamanho adequado e ser colocado corretamente. Um colar mal ajustado pode ser ineficaz e provocar desconforto ou complicações. É importante compreender que o colar, isoladamente, não imobiliza completamente a coluna cervical. Quando houver indicação de restrição de movimento, outras medidas de posicionamento e estabilização podem ser necessárias. As vias aéreas nunca devem ser negligenciadas para manter o colar. 54.7 Movimentação em bloco A movimentação em bloco é uma técnica coordenada utilizada em determinadas situações para movimentar o paciente mantendo alinhamento corporal e reduzindo movimentos desnecessários. Um profissional geralmente assume o controle da cabeça e coordena os comandos. Os demais profissionais posicionam-se para controlar ombros, tronco, pelve e membros. Antes do movimento, o líder explica a sequência. A movimentação deve ocorrer de forma sincronizada. A técnica pode ser utilizada em circunstâncias específicas, como necessidade de inspeção posterior ou transferência, conforme protocolo e recursos disponíveis. 54.8 Rolamento do paciente O rolamento pode ser necessário para examinar a região posterior, retirar objetos, posicionar determinados dispositivos ou transferir a vítima. Não deve ser realizado repetidamente sem necessidade. Antes do procedimento, tubos, acessos, equipamentos e outros dispositivos devem ser verificados para evitar tração ou desconexão. Após o movimento, o paciente deve ser novamente avaliado quanto à condição neurológica, respiratória e circulatória. 54.9 Prancha longa A prancha rígida longa possui utilidade principalmente como dispositivo de extricação e transferência em determinadas situações. Seu uso prolongado pode provocar dor, desconforto, lesões por pressão e dificuldades respiratórias em alguns pacientes. Por isso, não deve ser entendida automaticamente como superfície ideal para permanência prolongada durante todo o atendimento. Após a extricação, a necessidade de manutenção sobre a prancha deve ser reavaliada conforme protocolo e condições do paciente. 54.10 Maca tipo colher A maca tipo colher, também chamada de maca scoop, permite separar suas partes e posicioná-las ao redor do paciente com menor necessidade de elevação corporal. Pode ser útil na transferência de determinadas vítimas do chão para outro dispositivo. Seu emprego exige treinamento e coordenação. Antes do levantamento, os mecanismos de fechamento precisam ser verificados. O equipamento deve ser selecionado conforme peso, dimensões do paciente e especificações do fabricante. 54.11 Dispositivos de transferência Além da prancha e da maca tipo colher, podem ser utilizados lençóis de transferência, pranchas deslizantes, cadeiras de transporte e outros dispositivos. A escolha depende da condição clínica, ambiente, distância e número de profissionais disponíveis. Sempre que possível, equipamentos devem ser utilizados para reduzir levantamento manual e esforço físico. A capacidade máxima de carga de cada dispositivo deve ser respeitada. Pacientes com obesidade podem necessitar de equipamentos e recursos adicionais específicos para garantir segurança. 54.12 Retirada de paciente sentado Vítimas encontradas sentadas, inclusive dentro de veículos, necessitam de avaliação antes da retirada. Quando estão estáveis e não existe risco imediato, a movimentação pode ser planejada de forma controlada. Quando ocorre deterioração clínica, risco ambiental ou necessidade de intervenção imediata, pode ser necessária retirada mais rápida. A escolha não deve ser baseada apenas no mecanismo do acidente, mas na combinação entre condições da cena e situação clínica. 54.13 Retirada rápida A retirada rápida é utilizada quando o tempo necessário para uma movimentação convencional pode aumentar significativamente o risco para a vítima ou para a equipe. Entre as possíveis situações estão instabilidade clínica grave, comprometimento das vias aéreas, necessidade imediata de RCP e perigo ambiental. A técnica deve ser executada por profissionais treinados. “Rápida” não significa desorganizada. Mesmo em situações críticas, deve existir coordenação para reduzir movimentos desnecessários e evitar queda da vítima. 54.14 Arrastamento de emergência Quando existe ameaça imediata e não há condições para utilizar técnicas convencionais, pode ser necessário arrastar a vítima para uma área segura. Essa é uma medida excepcional. Quando possível, o corpo deve ser movimentado mantendo-se alinhamento razoável e protegendo cabeça e pescoço. A distância deve ser apenas a necessária para retirar a pessoa do perigo. Após alcançar área segura, deve-se realizar nova avaliação e iniciar ou continuar as intervenções necessárias. 54.15 Movimentação em escadas Escadas representam risco adicional para pacientes e profissionais. Cadeiras de transporte específicas podem ser utilizadas em pacientes cuja condição permita posição sentada. Pacientes que necessitam permanecer deitados podem exigir equipamentos e técnicas diferentes. A equipe deve avaliar peso do paciente, largura da escada, presença de curvas, obstáculos e quantidade de profissionais. Nunca se deve improvisar uma técnica que exceda a capacidade física da equipe. 54.16 Pacientes com obesidade O transporte de pacientes com obesidade pode exigir recursos adicionais. A equipe deve evitar tentativas de levantamento com número insuficiente de profissionais. Quando disponíveis, macas bariátricas, sistemas motorizados, dispositivos de transferência e apoio adicional devem ser solicitados. O planejamento protege tanto o paciente quanto os profissionais. A dignidade e privacidade devem ser preservadas durante todo o atendimento. 54.17 Fraturas e extremidades Antes de movimentar um paciente com suspeita de fratura, deve-se avaliar quando possível circulação, sensibilidade e função motora distal. Deformidades não devem ser manipuladas desnecessariamente. A estabilização da extremidade pode reduzir dor e movimentação da lesão durante o transporte. Entretanto, hemorragias graves, comprometimento vascular ou outras ameaças à vida possuem prioridade sobre a imobilização definitiva de uma extremidade. 54.18 Prevenção de quedas Toda transferência apresenta risco de queda. Antes de movimentar o paciente, as rodas da maca devem ser bloqueadas quando apropriado, superfícies precisam estar estáveis e obstáculos devem ser removidos. Após posicionamento na maca, os sistemas de retenção devem ser utilizados corretamente. A equipe nunca deve deixar um paciente vulnerável desacompanhado sobre maca elevada. Durante transferências entre maca, ambulância e leito hospitalar, a comunicação entre os profissionais é fundamental. 54.19 Ergonomia da equipe A movimentação inadequada de pacientes é importante causa de lesões ocupacionais. Sempre que possível, deve-se aproximar o peso do corpo, utilizar base estável e evitar movimentos de torção associados ao levantamento. A equipe deve trabalhar de maneira sincronizada. Quando o peso exceder a capacidade segura, recursos adicionais devem ser solicitados. O profissional não deve tentar demonstrar capacidade física assumindo sozinho uma carga que exige mais pessoas ou equipamentos. 54.20 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve avaliar a condição clínica e participar da definição da estratégia de movimentação. Também deve identificar intervenções que precisam ser realizadas antes, durante ou imediatamente após a transferência. Em pacientes críticos, deve garantir que vias aéreas, dispositivos, acessos vasculares e equipamentos de monitorização sejam protegidos durante o movimento. Após a transferência, deve reavaliar o paciente e documentar alterações relevantes. 54.21 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa diretamente das movimentações conforme treinamento e organização da equipe. Deve verificar equipamentos, auxiliar no posicionamento, proteger dispositivos e seguir os comandos estabelecidos pelo profissional responsável pela movimentação. Também participa da monitorização antes e depois do procedimento. Qualquer alteração clínica observada durante a transferência deve ser imediatamente comunicada. 54.22 Reavaliação após a movimentação Toda movimentação relevante deve ser seguida de reavaliação. Devem ser verificadas vias aéreas, respiração, circulação, nível de consciência e condição das lesões. Em pacientes traumatizados, alterações neurológicas novas precisam ser valorizadas. A equipe também deve conferir acessos vasculares, tubos, sondas, curativos, talas e equipamentos de monitorização. A movimentação somente está concluída quando o paciente está novamente seguro e clinicamente reavaliado. 54.23 Considerações finais A retirada e a movimentação de vítimas devem ser realizadas com planejamento, coordenação e utilização adequada dos equipamentos disponíveis. Movimentar rapidamente não significa movimentar de maneira improvisada. A restrição de movimento da coluna deve ser utilizada de forma seletiva, conforme avaliação e protocolos, evitando práticas indiscriminadas. A prancha longa possui importante função em determinadas etapas de extricação e transferência, mas seu uso prolongado deve ser reavaliado. Situações de risco imediato podem exigir retirada emergencial, enquanto pacientes estáveis permitem estratégias mais controladas. Em qualquer situação, intervenções vitais não devem ser atrasadas para preservar uma técnica de movimentação. Enfermeiros, técnicos de enfermagem e profissionais de resgate devem atuar de maneira coordenada, protegendo o paciente, os dispositivos assistenciais e a própria equipe. Avaliação antes da movimentação, comando único, utilização correta dos equipamentos e reavaliação após cada transferência constituem os principais fundamentos para uma retirada segura no atendimento pré-hospitalar.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.
