Aula 55 – Extricação Veicular e Retirada Rápida
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
A extricação veicular compreende o conjunto de técnicas utilizadas para possibilitar o acesso, atendimento e retirada segura de uma vítima que permanece no interior de um veículo após uma colisão ou outro acidente. No atendimento pré-hospitalar, esse processo exige atuação integrada entre profissionais de saúde e equipes especializadas em salvamento, porque frequentemente envolve riscos relacionados ao trânsito, instabilidade do veículo, combustível, eletricidade, estruturas deformadas e sistemas de segurança automotiva. A prioridade não consiste simplesmente em retirar a vítima do veículo no menor tempo possível. O objetivo é equilibrar segurança da cena, condição clínica, necessidade de intervenções imediatas e risco de movimentações adicionais. Em determinadas situações, uma extricação controlada é apropriada. Em outras, a gravidade clínica ou uma ameaça ambiental exige retirada rápida. 55.1 Segurança da cena Antes da aproximação, a equipe deve avaliar os riscos existentes. Tráfego de veículos, incêndio, vazamento de combustível, fios elétricos, cargas transportadas, posição do veículo e possibilidade de movimentação inesperada devem ser considerados. A sinalização e o controle do trânsito são fundamentais para proteger vítimas e profissionais. Veículos apoiados lateralmente, capotados, suspensos ou posicionados em barrancos apresentam risco específico de movimentação. Nesses casos, a estabilização deve ser realizada pela equipe de salvamento antes do acesso, sempre que as circunstâncias permitirem. Nenhum atendimento clínico deve transformar o profissional em uma nova vítima. 55.2 Avaliação do mecanismo do acidente Compreender o mecanismo auxilia na identificação das possíveis lesões. A equipe deve observar tipo de colisão, deformação do veículo, utilização de cinto de segurança, acionamento dos airbags, posição ocupada pela vítima e presença de ejeção parcial ou total. Colisões frontais, laterais, traseiras e capotamentos produzem diferentes padrões de transferência de energia. Entretanto, o mecanismo isoladamente não determina a existência ou gravidade de uma lesão. Ele deve ser interpretado juntamente com os achados clínicos. 55.3 Estabilização do veículo Antes de procedimentos de extricação, o veículo precisa permanecer estável. A estabilização evita movimentos durante o acesso e a retirada. Essa tarefa deve ser executada por profissionais capacitados utilizando equipamentos apropriados. Em veículos convencionais, medidas para impedir movimentação também podem incluir controle da ignição e outros procedimentos operacionais, conforme avaliação da equipe de salvamento. A equipe de saúde deve respeitar as orientações dos profissionais responsáveis pela segurança técnica da operação. 55.4 Veículos elétricos e híbridos Veículos elétricos e híbridos apresentam particularidades devido aos sistemas de alta tensão e baterias. Cabos e componentes de alta tensão não devem ser manipulados ou cortados por profissionais sem treinamento específico. Veículos envolvidos em colisões podem apresentar danos não imediatamente visíveis nos sistemas elétricos. A identificação do tipo de veículo deve ser comunicada à equipe de salvamento. A presença de veículo elétrico não significa necessariamente que toda a estrutura esteja energizada, mas exige procedimentos específicos de segurança. 55.5 Airbags e sistemas de segurança Airbags que não foram acionados durante a colisão podem representar risco durante operações de salvamento. A equipe deve evitar permanecer desnecessariamente na trajetória potencial desses dispositivos. Pré-tensionadores de cintos e outros sistemas automotivos também devem ser considerados. A manipulação de componentes do veículo é responsabilidade dos profissionais treinados para salvamento veicular. Os sistemas de segurança que protegeram a vítima durante o acidente podem representar riscos específicos durante a extricação. 55.6 Acesso inicial à vítima Após autorização da equipe responsável pela segurança, o profissional de saúde pode aproximar-se da vítima. Sempre que possível, o primeiro acesso deve ocorrer pela alternativa mais simples e segura. A vítima deve ser orientada a permanecer imóvel enquanto a avaliação é iniciada, quando sua condição permitir. A equipe deve estabelecer contato, avaliar nível de consciência e identificar imediatamente ameaças à vida. Hemorragias externas graves, comprometimento das vias aéreas e alterações respiratórias ou circulatórias possuem prioridade. 55.7 Avaliação dentro do veículo A avaliação inicial deve ser adaptada às limitações do espaço. A equipe deve identificar hemorragias potencialmente fatais, verificar vias aéreas, respiração, circulação e estado neurológico. Quando possível, sinais vitais e outros parâmetros devem ser obtidos. Procedimentos essenciais podem ser iniciados ainda no interior do veículo, desde que exista espaço e segurança. Entretanto, não se deve prolongar desnecessariamente a permanência da vítima em uma situação de risco para executar intervenções que podem ser realizadas após a retirada. 55.8 Acesso às vias aéreas O comprometimento das vias aéreas pode determinar necessidade de modificação imediata do plano de extricação. Sangue, vômito, secreções ou alterações anatômicas podem comprometer a ventilação. Quando necessário, devem ser utilizadas técnicas e dispositivos apropriados conforme nível de treinamento. Se a posição dentro do veículo impedir manejo adequado de uma via aérea ameaçada, a retirada rápida pode tornar-se necessária. A preservação das vias aéreas possui prioridade sobre uma estratégia prolongada de extricação. 55.9 Controle de hemorragias Hemorragias externas graves devem ser controladas assim que forem identificadas e houver acesso seguro. Compressão direta, curativos apropriados e torniquete em situações indicadas podem ser empregados conforme protocolos de trauma. A presença de estruturas deformadas pode dificultar a visualização das extremidades. Após a liberação, a equipe deve realizar nova avaliação, pois determinadas hemorragias podem tornar-se mais evidentes depois da retirada. 55.10 Restrição de movimento da coluna A restrição de movimento da coluna deve ser baseada em avaliação clínica e protocolos específicos. Nem toda pessoa envolvida em acidente automobilístico necessita automaticamente de colar cervical e prancha rígida. Dor ou sensibilidade na coluna, alteração neurológica, comprometimento da consciência e outros critérios devem ser considerados. Quando indicada, a restrição deve ser integrada à estratégia de retirada, sem comprometer vias aéreas ou atrasar intervenções vitais. 55.11 Extricação controlada A extricação controlada pode ser utilizada quando a vítima apresenta condições clínicas que permitem planejamento e a cena está estabilizada. Nesse processo, as equipes definem previamente a estratégia de acesso e retirada. Pode ser necessário remover portas, deslocar estruturas, ampliar espaços ou modificar partes do veículo. Essas atividades são executadas pelos profissionais especializados em salvamento. A equipe de saúde permanece responsável pela avaliação clínica e informa alterações que possam exigir aceleração da retirada. 55.12 Ferramentas de salvamento Ferramentas hidráulicas, elétricas e manuais podem ser utilizadas para criar espaço ao redor da vítima. Durante sua utilização, a equipe de saúde deve proteger o paciente contra fragmentos, ruído, movimentações e contato com equipamentos. Procedimentos de corte ou expansão de estruturas precisam ser comunicados previamente quando puderem produzir movimentação do veículo ou da vítima. O profissional de saúde não deve operar equipamentos especializados sem treinamento específico. 55.13 Criação de espaço Um conceito importante na extricação moderna é criar espaço ao redor da vítima em vez de tentar movimentá-la através de um espaço inadequado. Quanto maior o acesso, maior a possibilidade de realizar uma retirada coordenada e reduzir movimentos desnecessários. Dependendo do acidente, pode ser necessário remover portas, teto ou outras estruturas. A estratégia é definida pela equipe de salvamento considerando a posição da vítima e as condições do veículo. 55.14 Retirada rápida A retirada rápida é indicada quando o tempo necessário para uma extricação controlada representa risco maior. Entre as situações possíveis encontram-se incêndio ou ameaça imediata de incêndio, instabilidade não controlável da cena, deterioração clínica grave e necessidade de intervenção vital impossível de ser realizada adequadamente dentro do veículo. Parada cardiorrespiratória, comprometimento grave das vias aéreas ou ventilação inadequada podem justificar aceleração da retirada. A decisão deve considerar risco e benefício. Retirada rápida não significa retirada sem técnica. 55.15 Coordenação da retirada rápida Quando for necessária retirada rápida, a equipe deve definir rapidamente quem controla a cabeça e o tronco, quem movimenta os membros e quem recebe o paciente. O comando deve ser único. Todos precisam conhecer a sequência antes do início, sempre que houver tempo para essa comunicação. O paciente deve ser movimentado de forma coordenada, reduzindo movimentos desnecessários da coluna sem permitir que essa preocupação atrase uma intervenção vital. Após a retirada, a vítima deve ser posicionada em local seguro para avaliação completa. 55.16 Vítima encarcerada Uma vítima é considerada encarcerada quando obstáculos físicos impedem sua retirada convencional do veículo. Pode haver estruturas metálicas deformadas comprimindo ou prendendo partes do corpo. A simples presença da pessoa dentro de um veículo danificado não significa necessariamente encarceramento. Quando existe compressão de membros ou outras regiões, a equipe de saúde deve acompanhar atentamente a liberação devido à possibilidade de hemorragia e alterações hemodinâmicas. 55.17 Esmagamento prolongado Quando uma vítima permanece comprimida por período prolongado, pode existir lesão muscular extensa e risco de síndrome de esmagamento. A liberação pode estar associada a alterações metabólicas e cardiovasculares importantes. Nessas situações, o planejamento deve envolver a equipe de suporte avançado e a regulação médica conforme organização local. A condição hemodinâmica e cardíaca deve ser monitorizada quando os recursos estiverem disponíveis. A liberação não deve ser realizada de maneira descoordenada quando existe possibilidade de repercussão sistêmica significativa. 55.18 Após a extricação Imediatamente após a retirada, deve ser realizada nova avaliação sistematizada. Lesões anteriormente ocultas podem tornar-se visíveis. Devem ser novamente verificadas vias aéreas, ventilação, circulação, hemorragias, estado neurológico e exposição corporal. A equipe deve verificar também dispositivos instalados durante o atendimento, certificando-se de que permaneceram adequadamente posicionados. O paciente deve ser protegido contra hipotermia, inclusive em ambientes aparentemente quentes, principalmente nos traumatismos graves. 55.19 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve acompanhar a condição clínica durante todas as fases da extricação. Cabe identificar ameaças à vida, estabelecer prioridades assistenciais e informar à equipe de salvamento quando houver necessidade de acelerar ou adaptar o processo. Dentro das competências e protocolos, pode realizar controle de hemorragias, suporte das vias aéreas, ventilação, monitorização, acesso vascular e administração dos medicamentos indicados. Após a retirada, deve realizar nova avaliação e preparar o paciente para transporte. 55.20 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem auxilia na monitorização, controle de hemorragias, oxigenoterapia, ventilação e preparação dos materiais conforme suas competências. Durante a retirada, pode auxiliar no controle e movimentação da vítima de acordo com o plano estabelecido. Também deve proteger tubos, acessos, equipamentos e demais dispositivos. Qualquer mudança na condição clínica deve ser comunicada imediatamente ao enfermeiro e aos demais responsáveis pelo atendimento. 55.21 Transporte Depois da extricação e estabilização inicial, deve ser definido o transporte para unidade compatível com a gravidade do trauma. Durante o deslocamento, a vítima necessita de reavaliações periódicas. A unidade receptora deve receber informações sobre mecanismo do acidente, posição encontrada, uso de dispositivos de segurança, tempo aproximado de encarceramento quando aplicável, lesões identificadas, sinais vitais e procedimentos realizados. 55.22 Considerações finais A extricação veicular é uma operação integrada entre salvamento e assistência à saúde. A segurança da cena, estabilização do veículo e manipulação das estruturas são responsabilidades dos profissionais devidamente capacitados, enquanto a equipe de saúde acompanha continuamente a condição clínica da vítima. A estratégia deve ser individualizada. Pacientes estáveis em cenas controladas permitem extricação planejada, enquanto ameaças ambientais ou deterioração clínica podem exigir retirada rápida. Restrição de movimento da coluna deve ser aplicada de forma seletiva, e nenhuma técnica de imobilização pode assumir prioridade sobre vias aéreas, ventilação, circulação ou controle de hemorragia grave. A eficiência da extricação não é determinada apenas pela velocidade. Uma operação adequada é aquela que consegue retirar a vítima em tempo compatível com sua condição clínica, utilizando comunicação clara, segurança operacional, técnicas apropriadas e integração entre equipes. Após a retirada, a reavaliação completa é indispensável para identificar lesões, iniciar intervenções adicionais e garantir transporte seguro para o atendimento definitivo.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.
