Aula 57 – Transporte na Ambulância e Segurança Durante o Deslocamento
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
O transporte em ambulância constitui uma etapa assistencial do atendimento pré-hospitalar e não apenas o deslocamento entre o local da ocorrência e a unidade de saúde. Durante esse período, o paciente continua sob responsabilidade da equipe e pode apresentar alterações respiratórias, circulatórias ou neurológicas que exigem reconhecimento e intervenção imediatos. Por isso, segurança, monitorização, posicionamento adequado, fixação dos equipamentos, comunicação e reavaliação clínica devem permanecer presentes durante todo o percurso. A urgência clínica não elimina as normas de segurança. O deslocamento deve ser realizado de forma compatível com a condição do paciente e com as características da ocorrência, evitando que velocidade excessiva, movimentação inadequada ou equipamentos soltos criem novos riscos. 57.1 Avaliação antes do transporte Antes de iniciar o deslocamento, a equipe deve realizar nova avaliação do paciente e confirmar se as principais ameaças à vida foram identificadas e tratadas dentro das possibilidades do atendimento pré-hospitalar. Devem ser reavaliadas vias aéreas, respiração, circulação, estado neurológico e condições específicas relacionadas à emergência. Hemorragias precisam estar controladas, dispositivos devem ser conferidos e o paciente adequadamente posicionado. Em pacientes instáveis, procedimentos essenciais não devem ser desnecessariamente adiados para serem realizados com o veículo em movimento quando podem ser executados com maior segurança antes da partida. Ao mesmo tempo, intervenções que não modificam imediatamente a evolução não devem atrasar o transporte de pacientes que necessitam de tratamento hospitalar definitivo. 57.2 Definição da unidade de destino O destino deve ser definido conforme condição clínica, organização da rede assistencial, protocolos locais e orientação da regulação. Nem sempre a unidade geograficamente mais próxima é aquela que possui os recursos necessários. Pacientes com trauma grave podem necessitar de centro especializado. Suspeita de acidente vascular cerebral, síndrome coronariana aguda, queimaduras extensas, emergências obstétricas e outras condições podem exigir serviços específicos. A decisão deve considerar gravidade, tempo de transporte, recursos disponíveis e organização regional. 57.3 Preparação da ambulância Antes da partida, o compartimento assistencial deve estar organizado. Materiais utilizados durante o atendimento precisam ser descartados ou acondicionados adequadamente. Equipamentos necessários durante o percurso devem permanecer acessíveis. Monitor, desfibrilador, cilindros de oxigênio, bombas de infusão e outros equipamentos precisam estar corretamente fixados. Objetos soltos podem transformar-se em projéteis durante frenagens, curvas ou colisões. Gavetas, portas e compartimentos devem permanecer fechados. A organização também facilita o acesso rápido aos materiais em caso de deterioração do paciente. 57.4 Posicionamento do paciente A posição deve ser definida conforme condição clínica. Pacientes com dificuldade respiratória podem apresentar maior conforto e ventilação em posição com cabeceira elevada, desde que não existam contraindicações. Pacientes com alteração importante da consciência podem necessitar de medidas específicas para proteção das vias aéreas. Gestantes em fases avançadas da gravidez podem necessitar de posicionamento que reduza compressão aortocava. Pacientes traumatizados devem ser posicionados conforme lesões e necessidade de restrição de movimento da coluna. Não existe uma posição única adequada para todas as situações. A posição deve atender às necessidades fisiológicas e de segurança de cada paciente. 57.5 Fixação na maca Antes de movimentar a ambulância, o paciente deve estar adequadamente preso à maca utilizando os sistemas de retenção disponíveis e recomendados pelo fabricante. Cintos não devem ser omitidos simplesmente porque o percurso será curto. A equipe deve verificar se não existe compressão inadequada de lesões, acessos ou dispositivos. Braços e pernas devem permanecer protegidos dentro dos limites da maca. Após a entrada no veículo, é fundamental confirmar que a maca está corretamente acoplada ao sistema de fixação da ambulância. Uma maca não travada pode movimentar-se durante aceleração ou frenagem. 57.6 Segurança dos profissionais Os profissionais também estão sujeitos às forças produzidas durante o deslocamento. Sempre que possível, devem permanecer sentados e utilizando os sistemas de retenção disponíveis. Permanecer em pé ou movimentar-se desnecessariamente dentro de uma ambulância em movimento aumenta o risco de queda e traumatismo. Determinados procedimentos podem exigir aproximação do paciente, mas sua realização deve considerar risco e benefício. Quando uma intervenção complexa e não imediatamente vital puder ser realizada com o veículo parado, essa alternativa pode ser mais segura. A proteção da equipe é parte da segurança assistencial. 57.7 Condução do veículo A condução deve ser compatível com a condição do paciente, trânsito, condições da via e fatores ambientais. O uso de sinais sonoros e luminosos não elimina a necessidade de direção defensiva. Cruzamentos, curvas, pistas molhadas, congestionamentos e baixa visibilidade representam riscos importantes. A velocidade deve permitir controle do veículo. A redução de poucos minutos no tempo de transporte não justifica criar risco desproporcional de colisão. O condutor também deve ser informado quando a condição clínica exigir transporte prioritário ou quando procedimentos dentro da ambulância demandarem redução da velocidade ou parada segura. 57.8 Comunicação entre equipe e condutor A comunicação entre o compartimento assistencial e o condutor deve ser objetiva. O profissional responsável pelo paciente deve informar quando estiver pronto para iniciar o deslocamento. Caso seja necessária uma intervenção que não possa ser executada com segurança durante o movimento, pode solicitar parada em local protegido. O condutor deve, quando possível, avisar sobre mudanças importantes na dinâmica do deslocamento. A integração entre condução e assistência reduz riscos e melhora a organização. 57.9 Monitorização durante o transporte A intensidade da monitorização depende da condição clínica. Pacientes críticos podem necessitar de monitorização contínua de frequência cardíaca, ritmo cardíaco, saturação de oxigênio e outros parâmetros disponíveis. Pressão arterial e frequência respiratória devem ser reavaliadas conforme gravidade e protocolos. O nível de consciência também deve ser acompanhado. Não basta observar os números dos equipamentos. A avaliação clínica permanece indispensável. Alterações inesperadas devem ser confirmadas, pois movimentação do veículo pode produzir artefatos em monitores e oxímetros. 57.10 Vias aéreas e ventilação Pacientes com risco de comprometimento das vias aéreas exigem vigilância constante. Equipamentos de aspiração, ventilação e oxigenação devem permanecer acessíveis. Quando existe via aérea avançada, sua posição e fixação precisam ser verificadas antes e durante o transporte. A movimentação do paciente ou do veículo pode provocar deslocamento de dispositivos. Pacientes submetidos à ventilação devem ser avaliados quanto à expansão torácica, saturação, parâmetros ventilatórios e capnografia quando disponível e indicada. Qualquer deterioração deve ser prontamente investigada. 57.11 Oxigênio na ambulância Cilindros de oxigênio precisam permanecer fixados em suportes apropriados. Cilindros soltos representam grave risco físico em colisões ou frenagens. Antes do transporte de um paciente dependente de oxigênio, deve-se verificar se existe quantidade suficiente para todo o percurso, considerando possibilidade de atrasos. Conexões, fluxômetros e dispositivos devem ser conferidos. O oxigênio favorece combustão. Por isso, fontes de chama e práticas incompatíveis com sua utilização devem ser rigorosamente evitadas. 57.12 Acessos, infusões e medicamentos Acessos intravenosos ou intraósseos devem estar adequadamente fixados. Tubulações precisam permanecer organizadas para evitar tração, dobras e desconexões. Quando forem utilizadas bombas de infusão, estas devem estar presas em sistemas apropriados. Medicamentos administrados durante o transporte devem seguir prescrição, protocolo ou regulação aplicável e ser registrados. A equipe deve verificar periodicamente o local do acesso e a continuidade da infusão. 57.13 Transporte do paciente traumatizado O traumatizado necessita de reavaliação frequente porque determinadas lesões podem evoluir durante o percurso. Hemorragias devem ser novamente verificadas. Curativos, talas e dispositivos de restrição de movimento precisam permanecer adequadamente posicionados. Dor crescente, alteração da consciência, piora respiratória ou sinais de choque devem ser imediatamente valorizados. A prevenção da hipotermia também é importante no trauma, devendo o paciente permanecer protegido contra perda de calor. 57.14 Transporte pediátrico Crianças devem ser transportadas utilizando sistemas de retenção apropriados. O transporte no colo de familiares ou profissionais não oferece proteção adequada em uma colisão. A escolha do sistema deve considerar tamanho, peso, condição clínica e protocolos do serviço. Equipamentos pediátricos precisam permanecer acessíveis. Quando a presença de um responsável for permitida, ele também deve permanecer adequadamente acomodado e utilizando sistema de segurança. 57.15 Transporte de gestantes A gestante deve ser monitorizada considerando a emergência apresentada e a idade gestacional. Em gravidez avançada, a posição completamente supina pode favorecer compressão dos grandes vasos pelo útero. Quando clinicamente apropriado, podem ser utilizadas estratégias para reduzir essa compressão. Em trabalho de parto, a equipe deve acompanhar frequência das contrações, perda de líquido, sangramento e sinais de nascimento iminente. Materiais para assistência ao parto devem permanecer acessíveis quando houver possibilidade de nascimento durante o trajeto. 57.16 Transporte de pacientes agitados Pacientes com agitação psicomotora exigem planejamento específico de segurança. A equipe deve controlar objetos potencialmente perigosos e manter observação adequada. Quando houver necessidade excepcional de contenção, ela deve seguir legislação, protocolos e técnicas apropriadas. A contenção nunca elimina a necessidade de monitorização. Vias aéreas, ventilação, circulação e nível de consciência devem ser acompanhados, especialmente após administração de medicamentos sedativos. 57.17 Deterioração durante o percurso A condição clínica pode mudar rapidamente. Diante de deterioração, a equipe deve reavaliar sistematicamente o paciente e identificar a causa provável. Pode ser necessário modificar oxigenoterapia, fornecer ventilação, controlar nova hemorragia, administrar medicamentos ou iniciar ressuscitação. Quando a intervenção não puder ser executada com segurança no veículo em movimento, o condutor pode ser orientado a parar em local protegido. Em uma parada cardiorrespiratória, a segurança da equipe durante as compressões e demais procedimentos deve ser considerada juntamente com a necessidade de ressuscitação imediata. 57.18 Registro do atendimento Todos os acontecimentos relevantes devem ser documentados. O registro deve incluir condição inicial, sinais vitais, avaliações realizadas, intervenções, medicamentos, doses, horários e resposta clínica. Alterações ocorridas durante o transporte também precisam ser registradas. Uma documentação objetiva favorece continuidade assistencial, avaliação da qualidade do atendimento e segurança profissional. 57.19 Comunicação com a unidade receptora Pacientes graves devem ser comunicados previamente ao serviço de destino conforme fluxo da regulação. As informações precisam ser breves e relevantes: idade aproximada, problema principal, mecanismo quando traumático, condição clínica, sinais vitais importantes, intervenções realizadas e tempo estimado para chegada. A comunicação antecipada permite que o hospital organize recursos antes da chegada. 57.20 Transferência do cuidado Ao chegar à unidade, a responsabilidade assistencial não termina simplesmente com a entrada da ambulância. O paciente deve ser transferido de maneira segura para a equipe receptora. O relato deve apresentar situação encontrada, evolução, antecedentes relevantes, sinais vitais, procedimentos e medicamentos administrados. Documentos e pertences devem seguir os procedimentos institucionais. A equipe pré-hospitalar deve garantir que informações críticas sejam efetivamente transmitidas, evitando depender exclusivamente do registro escrito. 57.21 Higienização e preparação para nova ocorrência Após a transferência, a ambulância deve ser reorganizada. Materiais utilizados precisam ser repostos, resíduos descartados adequadamente e superfícies e equipamentos submetidos aos procedimentos de limpeza e desinfecção previstos. Oxigênio e medicamentos devem ser conferidos. Equipamentos que apresentem falhas devem ser retirados de uso ou encaminhados para manutenção conforme protocolo. A unidade somente deve retornar à disponibilidade quando estiver em condições seguras para novo atendimento. 57.22 Atuação do enfermeiro O enfermeiro deve definir e manter as prioridades assistenciais durante o transporte, monitorizar a evolução clínica e antecipar possíveis complicações. Também deve garantir segurança dos dispositivos, administração correta de medicamentos, registro das intervenções e comunicação com regulação e unidade receptora. Quando houver deterioração, deve organizar rapidamente as intervenções dentro de suas competências e protocolos. 57.23 Atuação do técnico de enfermagem O técnico de enfermagem participa da monitorização, oxigenoterapia, ventilação, preparação e administração de medicamentos dentro de suas competências, além da verificação dos equipamentos e dispositivos. Deve permanecer atento a mudanças respiratórias, circulatórias e neurológicas. Também participa da transferência segura do paciente e da reorganização da unidade após o atendimento. 57.24 Considerações finais O transporte em ambulância é continuidade direta do atendimento pré-hospitalar. Durante o deslocamento, o paciente permanece sujeito à evolução de sua doença ou trauma e aos riscos relacionados ao movimento do veículo. Paciente, profissionais, maca, cilindros e equipamentos devem estar adequadamente fixados. A urgência não justifica condução que produza risco desproporcional, e procedimentos complexos devem ser realizados com o veículo parado sempre que essa estratégia for clinicamente possível e mais segura. Monitorização, reavaliação, comunicação entre equipe e condutor e antecipação das possíveis complicações são essenciais. A escolha da unidade de destino deve considerar a necessidade clínica e a organização da rede. O transporte somente pode ser considerado concluído após a transferência segura do paciente e das informações relevantes à equipe receptora. Dessa forma, segurança viária e assistência clínica não constituem objetivos concorrentes. Ambas fazem parte do mesmo processo destinado a garantir continuidade, qualidade e segurança no atendimento pré-hospitalar.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.
