Conteúdo do curso
Atendimento Pré-Hospitalar no SAMU 192 para Enfermeiros e Técnicos de Enfermagem [APH2026-5b66295d]

Aula 58 – Incidentes com Múltiplas Vítimas

Objetivo: Compreender e aplicar, dentro das competências profissionais e protocolos do serviço, os fundamentos e condutas relacionados a incidentes com múltiplas vítimas no Atendimento Pré-Hospitalar.
CAIXA EXPLICATIVA – Princípio de segurança

No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.

Fonte: National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

Conteúdo da aula

Os incidentes com múltiplas vítimas representam uma das situações mais complexas encontradas no Atendimento Pré-Hospitalar, pois exigem que as equipes modifiquem temporariamente a lógica habitual de assistência. Em uma ocorrência convencional, os recursos disponíveis geralmente permitem concentrar esforços individualmente em cada paciente. Em um incidente com múltiplas vítimas, entretanto, pode existir uma desproporção entre o número e a gravidade das vítimas e os recursos disponíveis naquele momento. Nesse contexto, torna-se necessário estabelecer prioridades, organizar a cena, realizar triagem, distribuir recursos e coordenar o transporte para diferentes serviços de saúde. Um Incidente com Múltiplas Vítimas, frequentemente denominado IMV, pode ocorrer em acidentes de trânsito envolvendo diversos veículos, colisões de ônibus, desabamentos, incêndios, explosões, acidentes industriais, eventos climáticos extremos, tumultos e outras situações capazes de produzir simultaneamente grande número de pessoas necessitando de atendimento. O elemento fundamental para caracterizar operacionalmente um IMV não é apenas um número absoluto de vítimas. A capacidade de resposta disponível no local também deve ser considerada. Uma ocorrência com determinado número de vítimas pode ser administrável em uma região com ampla disponibilidade de ambulâncias, hospitais e equipes, mas representar grave sobrecarga em uma localidade com poucos recursos. Reconhecimento inicial do incidente A primeira equipe que chega ao local possui papel estratégico. Antes de iniciar intervenções individuais, deve avaliar rapidamente o cenário e transmitir informações à central de regulação. Essa comunicação inicial permite dimensionar recursos adicionais e iniciar precocemente a organização da resposta. A avaliação deve procurar responder questões essenciais: qual foi o tipo de ocorrência, quantas vítimas existem aproximadamente, quais riscos permanecem ativos, quais recursos serão necessários e quais são as condições de acesso e saída da área. É importante fornecer uma estimativa inicial do número de vítimas mesmo quando ainda não for possível determinar o total exato. Essa informação poderá ser atualizada conforme a operação progride. A segurança da cena permanece como prioridade. Trânsito, incêndio, combustível, eletricidade, estruturas instáveis, produtos perigosos, violência e condições ambientais podem transformar os próprios profissionais em vítimas. A entrada em área insegura sem controle adequado compromete toda a operação. Mudança da lógica assistencial Em situações rotineiras, a assistência pré-hospitalar busca oferecer ao paciente todos os recursos necessários disponíveis. Em um IMV, essa lógica precisa ser adaptada para que os recursos existentes produzam benefício para o maior número possível de pessoas. Isso significa que procedimentos demorados realizados precocemente em uma única vítima podem consumir recursos necessários para identificar e atender diversas outras vítimas. A assistência inicial concentra-se, portanto, na identificação rápida das condições imediatamente ameaçadoras à vida e nas intervenções compatíveis com o sistema de triagem utilizado. Essa mudança não significa abandono da qualidade assistencial. Representa uma reorganização temporária das prioridades diante da limitação operacional. O princípio central é promover o maior benefício possível ao conjunto das vítimas, respeitando segurança, protocolos assistenciais, regulação médica e capacidade disponível. Organização da cena Uma cena desorganizada pode produzir atrasos, duplicação de tarefas, utilização inadequada das ambulâncias e dificuldade para identificar quais pacientes já foram avaliados. Por esse motivo, deve existir uma estrutura clara de comando e comunicação. Conforme a magnitude do incidente e os protocolos locais, podem ser organizadas funções relacionadas ao comando, segurança, triagem, tratamento, transporte, logística e comunicação. A definição dessas funções evita que diferentes profissionais executem tarefas conflitantes. Também podem ser estabelecidas áreas específicas para concentração e atendimento das vítimas. A disposição dessas áreas deve considerar segurança, facilidade de acesso, fluxo das ambulâncias e possibilidade de evacuação. A circulação dos veículos precisa ser organizada para evitar congestionamentos. Ambulâncias posicionadas inadequadamente podem bloquear a chegada de recursos adicionais ou impedir a saída dos veículos responsáveis pelo transporte das vítimas prioritárias. Triagem das vítimas A triagem constitui um dos principais componentes do atendimento aos incidentes com múltiplas vítimas. Seu objetivo é estabelecer prioridades de atendimento e evacuação utilizando critérios rápidos e padronizados. Um dos métodos internacionalmente conhecidos é o START, sigla de Simple Triage and Rapid Treatment. O método utiliza parâmetros relacionados à capacidade de caminhar, respiração, perfusão e estado mental para estabelecer prioridades. A triagem inicial deve ser rápida. Não corresponde a uma avaliação clínica completa e não substitui a avaliação secundária posteriormente realizada. As vítimas são classificadas em categorias de prioridade, tradicionalmente identificadas por cores. De maneira geral, vermelho corresponde à necessidade de atendimento imediato; amarelo identifica pacientes graves que podem tolerar algum atraso; verde corresponde às vítimas com menor gravidade e capacidade preservada para deslocamento; preto é utilizado de acordo com o protocolo adotado para situações de óbito ou ausência de possibilidade de intervenção dentro dos critérios operacionais empregados. Os critérios específicos devem seguir o protocolo institucional e o sistema de triagem oficialmente adotado pelo serviço. A triagem é dinâmica Uma classificação realizada inicialmente não deve ser considerada definitiva. O estado clínico pode se modificar rapidamente. Uma vítima inicialmente classificada como amarela pode apresentar deterioração respiratória ou circulatória e precisar ser reclassificada como vermelha. Da mesma forma, informações adicionais obtidas durante avaliações posteriores podem modificar prioridades. Por isso, a triagem deve ocorrer novamente em diferentes momentos do atendimento, principalmente antes da evacuação. O registro da classificação é igualmente importante. Etiquetas, cartões, pulseiras ou outros mecanismos previstos pelo serviço podem facilitar a identificação das vítimas e reduzir perdas de informação durante o fluxo assistencial. Área de atendimento Quando operacionalmente indicado, as vítimas são direcionadas para áreas organizadas conforme suas prioridades. O objetivo é facilitar tratamento, monitoramento e preparação para transporte. Os pacientes de maior prioridade precisam permanecer em local de fácil acesso às equipes e aos veículos destinados à evacuação. As vítimas classificadas como verdes também necessitam de acompanhamento. A capacidade de caminhar não exclui lesões importantes. Além disso, algumas condições podem manifestar sinais progressivamente. Portanto, essas vítimas devem permanecer identificadas e submetidas à avaliação adequada quando os recursos permitirem. Outro aspecto relevante é evitar dispersão das vítimas. Pessoas aparentemente pouco lesionadas podem abandonar a área antes de serem identificadas, dificultando o controle do número total de envolvidos. Transporte e regulação O transporte das vítimas deve ocorrer de maneira coordenada. Simplesmente encaminhar todos os pacientes ao hospital mais próximo pode sobrecarregar rapidamente uma única instituição e comprometer a capacidade de atendimento. A regulação possui papel essencial na distribuição dos pacientes conforme gravidade, disponibilidade de leitos, capacidade hospitalar e recursos especializados necessários. Dessa forma, diferentes hospitais podem receber vítimas de acordo com sua capacidade. A ordem de evacuação também deve considerar a prioridade clínica. Em regra, pacientes classificados como imediatos demandam transporte prioritário, mas decisões específicas dependem das condições clínicas, recursos disponíveis, distância dos hospitais e orientação da regulação. Durante todo o processo, é necessário registrar, sempre que possível, identificação ou número atribuído à vítima, classificação, condições clínicas, procedimentos realizados, veículo responsável pelo transporte e unidade de destino. Atuação da enfermagem A equipe de enfermagem desempenha papel fundamental em diferentes etapas do atendimento. Enfermeiros e técnicos de enfermagem podem participar da avaliação, triagem conforme protocolo institucional e atribuições profissionais, organização dos materiais, assistência às vítimas, monitorização, imobilização quando indicada, controle de hemorragias, suporte ventilatório, preparação para transporte e registros assistenciais. A atuação deve respeitar as competências profissionais, os protocolos do serviço, a regulação médica e a legislação vigente. O enfermeiro também possui importante participação na organização da assistência e no gerenciamento dos recursos de enfermagem. Em situações de grande magnitude, materiais precisam ser utilizados racionalmente. Oxigênio, dispositivos para controle de hemorragia, materiais de imobilização, medicamentos e equipamentos de monitorização podem tornar-se recursos críticos. O técnico de enfermagem integra a execução das ações assistenciais dentro de suas atribuições legais e sob organização e supervisão do enfermeiro, quando aplicável. Comunicação durante o incidente Comunicação objetiva é indispensável. Informações excessivamente longas podem ocupar os canais de rádio e dificultar mensagens prioritárias. As comunicações devem apresentar informações essenciais de maneira padronizada: identificação da equipe, localização, natureza do evento, riscos presentes, estimativa de vítimas, recursos necessários e alterações relevantes da situação. Também deve existir controle das informações sobre os pacientes transportados. Em incidentes prolongados, registros inadequados podem resultar em dificuldade para determinar para onde cada vítima foi encaminhada. Segurança e proteção da equipe Além dos riscos diretamente relacionados ao evento, as equipes podem permanecer longos períodos expostas ao calor, frio, chuva, fumaça, ruído e desgaste físico. O uso adequado dos equipamentos de proteção individual é obrigatório conforme o risco identificado. Quando houver suspeita de produtos químicos, agentes biológicos, materiais radioativos ou outras substâncias perigosas, protocolos específicos devem ser acionados. Profissionais sem proteção apropriada não devem entrar em zonas que exijam equipamentos especializados. Integração entre os serviços Incidentes de maior magnitude normalmente exigem atuação integrada entre SAMU, Corpo de Bombeiros, forças de segurança, Defesa Civil, hospitais, órgãos municipais e estaduais e outros recursos, conforme a natureza da ocorrência. A integração depende de comando organizado, comunicação padronizada e definição clara das responsabilidades. Cada instituição possui atribuições específicas, mas todas precisam funcionar dentro de uma estratégia comum. Considerações finais O atendimento a incidentes com múltiplas vítimas exige organização, disciplina operacional e capacidade de adaptação. A prioridade deixa de estar exclusivamente concentrada em um único paciente e passa a considerar simultaneamente o conjunto das vítimas e os recursos disponíveis. Reconhecimento rápido da ocorrência, segurança da cena, acionamento precoce de recursos adicionais, estabelecimento de comando, triagem, organização das áreas de atendimento, comunicação, tratamento inicial e transporte regulado constituem componentes fundamentais dessa resposta. Para os profissionais de enfermagem que atuam no SAMU e em outros serviços de Atendimento Pré-Hospitalar, compreender essa estrutura é indispensável. O desempenho adequado em um IMV depende não apenas do conhecimento técnico individual, mas principalmente da capacidade de trabalhar dentro de um sistema organizado. Nos próximos capítulos desta Parte IX serão aprofundados o Método START, a organização da cena em incidentes com múltiplas vítimas e a comunicação, as áreas de atendimento e os processos de evacuação.

CAIXA EXPLICATIVA – Aplicação prática

O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.

Referências essenciais da aula

National Association of Emergency Medical Technicians. PHTLS: Prehospital Trauma Life Support. 9. ed., 2020; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002.

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