Aula 62 – Processo de Enfermagem aplicado ao Atendimento Pré-Hospitalar
No APH, a técnica deve ser executada somente quando houver indicação, competência legal, capacitação e respaldo do protocolo institucional. A avaliação e a reavaliação permanecem contínuas.
Conteúdo da aula
O Processo de Enfermagem constitui um método científico e sistematizado para organizar a assistência prestada pela equipe de enfermagem. No contexto do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, sua aplicação apresenta características particulares, pois o atendimento pré-hospitalar ocorre em ambientes dinâmicos, com recursos limitados e, frequentemente, diante de situações em que decisões precisam ser tomadas em poucos minutos. Mesmo nessas condições, a assistência não deve ser improvisada. Avaliação, planejamento, intervenção, reavaliação e registro precisam fazer parte do cuidado prestado ao paciente. No Brasil, a Sistematização da Assistência de Enfermagem e o Processo de Enfermagem são regulamentados pelo Conselho Federal de Enfermagem. Atualmente, a Resolução Cofen nº 736/2024 dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem nos diferentes contextos socioambientais em que ocorre o cuidado profissional de enfermagem. O Processo de Enfermagem é organizado em cinco etapas inter-relacionadas, interdependentes, recorrentes e cíclicas: avaliação de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, planejamento de enfermagem, implementação de enfermagem e evolução de enfermagem. No atendimento pré-hospitalar, essas etapas permanecem presentes, porém são executadas de acordo com a gravidade do paciente e as características da ocorrência. Em uma situação crítica, algumas etapas acontecem praticamente de maneira simultânea. Enquanto avalia o paciente, o enfermeiro identifica necessidades prioritárias, determina intervenções, executa ou coordena os cuidados e observa imediatamente a resposta obtida. Avaliação de Enfermagem no APH A avaliação começa antes mesmo do contato direto com a vítima. Ao chegar ao local da ocorrência, a primeira preocupação da equipe deve ser a segurança da cena. É necessário identificar riscos relacionados ao trânsito, incêndios, eletricidade, violência, produtos químicos, estruturas instáveis, animais, condições ambientais e qualquer outro elemento que possa representar perigo para profissionais, pacientes ou terceiros. Somente depois de consideradas as condições de segurança é realizada a aproximação do paciente. Nos casos de trauma, a avaliação primária pode seguir uma sequência sistematizada como o XABCDE. O objetivo é reconhecer e tratar imediatamente condições que representem ameaça à vida. O X corresponde à identificação e ao controle de hemorragias externas potencialmente fatais. Sangramentos maciços precisam ser reconhecidos e controlados rapidamente, pois podem causar deterioração hemodinâmica e morte em curto período. A letra A corresponde às vias aéreas, associada à avaliação da necessidade de proteção da coluna cervical quando indicada pelo mecanismo e pelos achados clínicos. Deve-se observar se o paciente consegue falar, se existem secreções, sangue, vômitos, corpos estranhos ou outras situações capazes de comprometer a permeabilidade das vias aéreas. A letra B corresponde à respiração. São avaliados frequência e padrão respiratório, expansibilidade torácica, esforço respiratório, oxigenação e outros sinais pertinentes. Alterações importantes devem ser reconhecidas rapidamente e manejadas conforme protocolos assistenciais e competência profissional. A letra C representa circulação. Avaliam-se pulso, perfusão, características da pele, sinais de choque e presença de hemorragias. A pressão arterial e outros parâmetros podem complementar a avaliação conforme a situação clínica e os recursos disponíveis. A letra D corresponde à avaliação neurológica. O nível de consciência deve ser verificado de maneira sistematizada. Alterações neurológicas podem decorrer de traumatismo cranioencefálico, hipoglicemia, hipóxia, intoxicações, acidente vascular cerebral, convulsões ou outras condições. A letra E corresponde à exposição do paciente para identificação de lesões ou alterações ainda não observadas, evitando-se simultaneamente perda excessiva de calor e hipotermia. Nas emergências clínicas, a avaliação também deve priorizar ameaças imediatas à vida. Um paciente com dor torácica, por exemplo, exige avaliação diferente daquele encontrado com crise convulsiva, dispneia, hipoglicemia ou alteração súbita do nível de consciência. Entretanto, a lógica permanece a mesma: reconhecer prioridades, intervir e reavaliar. Coleta de informações Após o controle das ameaças imediatas, a equipe amplia a avaliação. Informações sobre sinais e sintomas, alergias conhecidas, medicamentos utilizados, antecedentes médicos, última alimentação e acontecimentos relacionados ao quadro atual podem contribuir para a compreensão da situação. Quando o paciente está consciente e orientado, ele constitui a principal fonte de informações. Quando isso não é possível, familiares, acompanhantes ou testemunhas podem fornecer dados importantes. A equipe deve distinguir informações objetivamente verificadas daquelas relatadas por terceiros. Essa diferenciação também deve aparecer na documentação da ocorrência. Sinais vitais e outros parâmetros devem ser obtidos e acompanhados conforme necessidade clínica. Uma medida isolada possui importância, mas a tendência evolutiva frequentemente fornece informação ainda mais relevante. Um paciente cuja pressão arterial, nível de consciência ou padrão respiratório se deteriora durante o transporte precisa ser rapidamente reavaliado. Diagnóstico de Enfermagem A segunda etapa é o diagnóstico de enfermagem. Ele representa o julgamento clínico realizado pelo enfermeiro a partir das informações obtidas na avaliação. É importante diferenciar diagnóstico médico de diagnóstico de enfermagem. O diagnóstico médico identifica doenças ou condições clínicas. O diagnóstico de enfermagem concentra-se nas respostas humanas, necessidades e problemas relacionados ao cuidado de enfermagem. No APH, a rapidez necessária ao atendimento não elimina o raciocínio clínico. Ao contrário, exige capacidade de identificar prioridades de maneira organizada. Situações relacionadas à ventilação inadequada, perfusão comprometida, dor, sangramento, alteração da consciência, risco de aspiração, perda de temperatura corporal ou comprometimento da integridade física podem demandar intervenções imediatas. A formulação e o registro dos diagnósticos de enfermagem são atribuições do enfermeiro dentro do Processo de Enfermagem. Planejamento de Enfermagem Após identificar as necessidades prioritárias, ocorre o planejamento. No ambiente pré-hospitalar, esse planejamento pode acontecer em poucos segundos. A equipe precisa determinar quais intervenções devem ser realizadas primeiro, quais recursos serão necessários, quem executará cada tarefa e como o paciente será monitorado. As prioridades são determinadas principalmente pela gravidade e pelo risco de deterioração. Não faria sentido concentrar inicialmente a atenção em uma lesão superficial se o paciente apresenta hemorragia maciça, obstrução das vias aéreas ou ventilação inadequada. O planejamento deve acompanhar a hierarquia das ameaças à vida. Também deve considerar o transporte. Dependendo da situação, determinadas intervenções precisam ser executadas imediatamente no local, enquanto outras podem ocorrer durante o deslocamento, evitando atrasos desnecessários na chegada ao serviço de referência. Implementação A implementação corresponde à execução das intervenções estabelecidas. Podem fazer parte dessa etapa, conforme avaliação, protocolos, competência profissional e recursos disponíveis, medidas relacionadas ao controle de hemorragias, manutenção das vias aéreas, oxigenoterapia quando indicada, monitorização, obtenção de acesso vascular, administração de medicamentos, cuidados com ferimentos, prevenção de hipotermia, posicionamento, preparação para transporte e suporte durante procedimentos de maior complexidade. A distribuição das atividades deve respeitar as atribuições profissionais do enfermeiro e do técnico de enfermagem. O enfermeiro possui responsabilidade pelo planejamento e pela organização da assistência de enfermagem, enquanto técnicos de enfermagem participam da execução dos cuidados dentro de suas competências legais e sob as condições previstas pela legislação profissional. No SAMU, também existe articulação com médico regulador, profissionais da unidade móvel e demais integrantes envolvidos no atendimento. Assim, o Processo de Enfermagem integra-se à dinâmica multiprofissional do serviço. Evolução e reavaliação A evolução de enfermagem permite verificar os resultados alcançados e orientar novas decisões. No APH, reavaliar é indispensável porque o estado do paciente pode mudar rapidamente. Após controlar uma hemorragia, deve-se verificar se o sangramento continua controlado. Depois de uma intervenção relacionada à ventilação, é necessário observar a resposta respiratória. Após administração de medicamento, devem ser avaliados seus efeitos terapêuticos e possíveis reações adversas. O mesmo princípio aplica-se durante o transporte. Pacientes instáveis exigem vigilância contínua e reavaliações frequentes. Qualquer deterioração deve resultar em nova análise das prioridades e, quando necessário, novas intervenções. Portanto, o cuidado não deve ser entendido como uma sequência rígida que termina depois da primeira intervenção. Ele funciona como um ciclo: avaliar → identificar problemas → planejar → implementar → avaliar resultados → reavaliar. Registro do Processo de Enfermagem Todas as informações relevantes relacionadas à assistência precisam ser registradas. O registro deve apresentar condições encontradas, avaliações realizadas, sinais vitais pertinentes, intervenções executadas, medicamentos administrados, horários relevantes, respostas observadas e condições do paciente durante a transferência do cuidado. Além de contribuir para a continuidade assistencial, a documentação possui importância ética, profissional, administrativa e legal. O profissional deve registrar aquilo que efetivamente avaliou, observou e realizou. Informações não confirmadas não devem ser apresentadas como fatos. Processo de Enfermagem e continuidade do cuidado A assistência pré-hospitalar não termina quando a ambulância chega ao hospital ou à unidade de referência. A transferência das informações faz parte da continuidade do cuidado. A equipe receptora precisa conhecer o motivo do atendimento, condições iniciais do paciente, principais achados, evolução durante a ocorrência, intervenções realizadas, medicamentos administrados e resposta apresentada. Uma comunicação incompleta pode comprometer a continuidade da assistência. Por isso, o Processo de Enfermagem aplicado ao APH deve ser compreendido como um ciclo que acompanha toda a ocorrência, desde a avaliação inicial até a transferência do paciente. Na prática profissional, uma sequência mental útil é: segurança da cena → avaliação primária → identificação das prioridades → intervenções imediatas → avaliação complementar → monitorização → reavaliação → transporte → transferência do cuidado → registro. Dominar essa lógica permite que o profissional de enfermagem organize suas ações mesmo diante de cenários complexos. No SAMU, rapidez não significa atuar sem método. O atendimento eficiente depende justamente da capacidade de aplicar conhecimento técnico e raciocínio clínico de maneira organizada, segura e continuamente reavaliada.
O conteúdo desta aula deve ser integrado à sequência segurança, avaliação, prioridade, intervenção, reavaliação, regulação, transporte e transferência do cuidado. Em procedimentos de maior complexidade, devem ser observadas as atribuições específicas do enfermeiro e do técnico de enfermagem.
Referências essenciais da aula
Brasil. Lei nº 7.498/1986; Decreto nº 94.406/1987; Ministério da Saúde, Portaria GM/MS nº 2.048/2002; Cofen, Resolução nº 713/2022.
